Filhas de Ursula #9

encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Nas encruzilhadas de hoje...

Penso sobre as restrições mercadológicas sobre autoras e entrevisto a autora Carol Façanha.

Entidades

Já comentei aqui sobre autoras que publicam em ambos os gêneros: fantasia e ficção científica. O subtítulo do projeto fala de encruzilhadas porque o ato de escrever por si só traz escolhas. Uma curva na trama conduz a história por um caminho que é totalmente diferente se a guinada fosse duas bifurcações mais tarde para o outro lado. Escolher como representar um personagem já imediatamente dita uma série de opções que se não ficam impossíveis, se tornam pelo menos parte das dificuldades que esse personagem deve enfrentar. Quando colocamos a autora como protagonista podemos olhar para seus livros e pensar nessa trajetória de publicação, um desbravamento da fantasia, ou um voo rasante pela ficção científica, ou um ir e vir constante zigue-zagueando por gêneros literários pois todo artista é livre para criar o que o coração manda.

Livre para criar, contudo, não significa que todas as criações serão igualmente bem recebidas uma vez que saem do mundinho mental da escritora e passam para o mundão de leitores. Eu de propósito quis chamar pelo menos algumas autoras para as entrevistas que tivessem já pisado na poça dos dois gêneros, assim como eu.

Estritamente falando, minha primeira publicação foi de uma ficção científica. Marea Infinitus carrega muito dos meus gostos e amores, e ser um conto lançado de forma quase independente (eu tive o apoio da agência!) não o torna menos importante na parte do meu coração reservado aos livros. Eu não planejei que fosse assim. Lá trás, quando decidi que ia tentar me tornar autora publicada, não desenhei uma carreira nos mínimos detalhes pensando na ordem das minhas publicações. Não imaginei nem que primeiro seria uma ficção científica e que depois eu entraria numa editora com uma romantasia/romance paranormal (não vou debater essas definições hoje). Na verdade, minha primeira tentativa de entrar numa agência literária foi com uma fantasia urbana e ela foi recusada. Minhas primeiras tentativas de publicar algo mais longo na Revista Mafagafo e na Editora Dame Blanche, foram com fantasias. Minha primeira tentativa com editoras grandes foi com uma história bem difícil de definir que caberia mais no gênero weird do que em fantasia, e essa foi recusada também. Em comparação, meus contos de ficção científica costumavam se sair bem nas revistas. Por que não tentei as publicações de maior tamanho com ficção científica? Não sei, não planejei, mas principalmente porque não tinha nenhuma ficção científica grande escrita. E por que eu não tinha? Não sei, porque sempre escrevi o que me dava na telha. E assim por diante.

Olhando em retrospecto, teria feito diferente? Não. Gosto da minha trajetória de carreira como ela é. O que não quer dizer que eu não tenha certa preocupação quando olho para frente. Eu leio muita variedade dentro de ficção especulativa. Por que não poderia escrever variedade também? Será que o Mercado Editorial vai sempre esperar Romantasias com R maiúsculo e minhas ficções científicas e histórias esquisitas vão ficar pro lado independente da força? Algumas leitoras já me disseram que leriam até minha lista de compras, e realmente muita gente que chegou com Marea Infinitus ficou para Garras e Feras. Não tenho tanta certeza se quem veio com Garras foi atrás dos contos e curtiu. Eu não espero que gostem de tudo que eu escrevo, todo mundo tem direito a seus gostos pessoais, assim como eu tenho. Minha questão aqui mais é... será que a entidade Mercado Editorial me permitirá espaço e tempo para encontrar todos esses leitores dos diferentes gêneros, ou a minha curva na primeira encruzilhada de publicação de ficção especulativa já definiu um caminho sem volta?

Acho que essa é uma resposta que eu só vou ter depois de já ter andado um bocado, e eu ainda pretendo caminhar bastante. De todo modo, é também uma pergunta muito válida e que talvez mulheres mais sensatas do que eu tenham se feito/ainda se façam e planejado bem uma carreira em cima disso. Afinal de contas, publicar um livro significa ter que vender esse livro e em geral o Marketing (essa outra entidade assustadora) gosta de consistência e coerência, gosta de identidades visuais e marcas reconhecíveis. No mínimo, o marketing gosta de públicos leitores bem estabelecidos, e a verdade é que em tempos de algoritmos é bem difícil dialogar com públicos distintos.

Eu poderia aqui desfiar meu rosário de reclamações da homogeneização e uniformização causada pelos algoritmos de redes sociais, e ainda acredito que de um jeito ou de outro essa era não vai durar para sempre porque a economia da atenção não é sustentável a longo prazo (e muito menos em tempos de guerra) (fica aí a minha previsão de autora de ficção científica pro futuro). Mas, essa não é a minha intenção para hoje, primeiro porque sou e estou bem consciente da nossa necessidade de sobreviver no aqui e agora e o aqui e agora é um tabuleiro de perfis em múltiplas plataformas. O Mercado Editorial sabe disso e joga nesse tabuleiro tanto quanto qualquer outro setor comercial, portanto as autoras precisam jogar também. E também não digo isso de forma fatalista para nos conformarmos a seguir toda e qualquer trend que aparece pra vender livro. Observo que muita gente encontra formas de burlar esse sistema ou de pelo menos jogar da forma que melhor lhe convém, e preciso acreditar que também posso fazer isso porque com um bebê no colo é impossível eu gravar o número recomendado de vídeos por semana ou seja lá qual for a métrica da vez.

E em segundo lugar, porque no momento estou muito interessada nessa questão pelo viés que me impeliu a começar o Filhas de Ursula. Se existe uma diferença marcante na presença de mulheres em cada gênero da ficção especulativa, existe algo fundamentalmente diferente naquelas que publicam apenas ficção científica ou apenas fantasia daquelas que transitam de um poleiro para o outro? Particularmente, eu acredito que não, acho que a arte se manifesta da forma que o artista precisar, e alguma vezes isso fica bem claro ao público e outras não. O que me chama atenção é um fenômeno curioso, o “eu não sou como as outras garotas” edição ficção científica/fantasia/romantasia.

Não é incomum que em conversas criticando os livros contemporâneos de romantasia surjam autoras comentando que as fantasias delas são classificadas como romantasia apenas por serem escritas por mulheres. Também não é incomum que surjam autoras de ficção científica tentando mostrar que escrevem algo “sério de verdade” e comentando com algum grau de ironia e desprezo as obras românticas. Essa falsa competição feminina não é novidade. Há décadas e mais décadas as mulheres são forçadas a cair na armadilha de tentarem demonstrar seu valor mostrando que não são como outras mulheres, que escrevem/agem/pensam como homens. Aqui eu puxo o exemplo da romantasia porque é o mais atual e mais fácil de mencionar em textos falando de ficção especulativa, mas o mesmo ocorre em qualquer setor profissional: mulheres desdenhando de trabalhos e escolhas de outras mulheres em busca de obterem um suposto reconhecimento de que são iguais aos homens (spoiler: esse reconhecimento de igualdade raramente vem). No meio empresarial tendem a se vestir com ternos escuros e mais andróginos ao invés de adotarem estilos que são mais identificados como femininos. Em alguns casos até a postura corporal e o tom de voz é ajustado para que a mulher não seja vista como “mulherzinha”. Esquisito isso, né? Pensava eu que todos os seres humanos eram iguais... E veja, eu amo terninhos. Não estou criticando o que você veste ou a forma que escolhe se apresentar. Estou apenas comentando que essas escolhem podem, a depender da situação, ter origens mais profundas do que seu gosto pessoal, como por exemplo a necessidade de sobreviver num mundo que historicamente despreza e diminui tudo que é considerado feminino.

Isso é uma questão bem maior que o mercado editorial, é verdade, e justamente por isso é tão fácil e tão difícil fazer esses apontamentos. Hoje a nossa imagem é consumida junto com o livro, as autoras também são produtos. Se por um lado isso é muito triste pra quem não quer ser um produto, por outro é também uma habilidade que muita gente dominou para ter sucesso comercial e o Mercado ama essas pessoas. E quando digo Mercado com M maiúsculo não estou me referindo apenas a algumas poucas pessoas com poder de decisão em grandes editoras, mas todo o conjunto de microorganismos que compõem essa indústria vital: editoras, escritores, leitores, influencers.

É complexo tratar desse assunto porque essa opinião pode ser facilmente interpretada como um recalque, como uma pessoa amargurada por não ser tão carismática pra se dar bem nas redes sociais. Eu entendo perfeitamente o tanto de trabalho que dá usar as redes sociais pra vender e sobreviver — é um trabalho, realmente. Eu sei que não é fácil, tanto não é que não dou conta de fazer junto dos meus outros três trabalhos. Massss.... inevitavelmente, existe, sim, uma pressão por conformidade para se encaixar, e isso não é culpa das pessoas que trabalham bem com as redes, embora cada um de nós tenha lá seu quinhão de responsabilidade em manter esse ecossistema (você continua seguindo aquele influencer que foi misógino? Ou aquele que foi racista? Ou aquele que... enfim, vocês sabem). Os algoritmos dão preferência para determinados tipos de conteúdo, para determinados tipos de perfis, e sim, ele tem preferência por recortes de raça e classe.

Com tudo isso, não tem como fingirmos que esse não é um estressor a mais sobre as escolhas que as autoras fazem. O que tentar publicar, como tentar vender, quando, para quem... como se vestir, como dialogar... que categoria preencher. Cada pequena escolha dessas pode ser crucial para que seu perfil ou seu livro publicado de forma independente apareça para um agente literário, ou para uma editora prospectando novas vozes e considerando o potencial de vendas de uma nova aquisição.

A autenticidade morreu, então? Acredito que não, também. Acredito que as pessoas estão cada vez mais famintas por autenticidade e verdade num ambiente progressivamente algoritimizado e inundado por gosma de IA, mas nem sempre elas percebem isso. Muitas vezes o leitor não sabe que quer ler algo até ler esse algo, e tem, sim, se tornado mais difícil convencê-los de que uma história vai além de uma lista de tropos e que todo tipo de coisa maravilhosa os aguarda nas mudanças de perspectiva. Autores homens podem passar por essas pressões também? Com certeza, o algoritmo não perdoa ninguém. No entanto, já estamos na nona edição do Filhas e já lemos 9 entrevistas diferentes, acho que fica bem claro como certas dificuldades são maiores para mulheres. Os estereótipos sobre as autoras são apenas mais um muro a ser derrubado na conquista da cidadela da mente e do coração de cada leitor.

Como fazer isso? Eu não sei, temo que esse seja um texto com muito mais perguntas do que respostas, mas também não queria terminar a reflexão de hoje numa nota derrotista. Uma crença fundamental minha é que a arte é algo que seres humanos fazem porque fazem, e não por uma imposição divina conferida a seletos poucos. Isso significa que a arte nos acompanhou e acompanhará ao longo da história independentemente das condições. Ela se transforma, adota novas ferramentas e se espalha por diferentes meios, mas está sempre presente. Isso também vale para a ficção, que começou oral muito antes de existir na forma escrita e na forma audiovisual. Isso também significa que as escritoras vão continuar escrevendo o que der na telha delas porque, falando por experiência própria, quando a ideia vem só nos resta escrevê-la.

Todas essas ideias vão chegar a um público leitor? Talvez não. Talvez não no momento em que são escritas. Uma outra crença fundamental minha é que as histórias encontram as pessoas no momento que precisam encontrar. O que nos cabe fazer é justamente facilitar esse caminho. Pavimentar algumas estradas, colocar placas nas encruzilhadas, deixar comentários úteis no tripadvisor e, quem sabe, nos arriscarmos fora da trilha sempre que possível.

Deixo vocês com essas questões para ruminar, e com a entrevista da autora Carol Façanha, a cabecinha responsável pela ideia genial do nome “Filhas de Ursula” e que estará no evento presencial no domingo 08/03!

Entrevista Carol Façanha

 

Fotografia da autora Carol Façanha, uma mulher branca de cabelos compridos tingidos de ruivo. Ela está sentada sorrindo para a câmera contra um fundo em tons de rosa.

Carol Façanha é autora best-seller da Amazon, premiada com o Le Blanc e três vezes finalista do Prêmio Odisseia. Doutora em literatura pela UERJ, criou a estrutura “Da vítima ao monstro” que investiga a monstruosidade feminina como força política. Em 2024, venceu o Prêmio Voz com a distopia Ciborgues rebeldes sonham com a morte, publicada na Flip pela editora Patuá. Em 2025, participou de duas bienais, ficando no topo dos mais vendido da Flyve com a releitura de mitologia grega “Ilha das Nuvens Cadentes”. No mesmo ano, lançou a sua romantasia Voraz, que também ficou best-seller na sua categoria na Amazon. Seus livros já venderam mais de 1 milhão de páginas de vendas na plataforma.

 

1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?

Para mim, a ficção científica seria uma história em que há um sistema de tecnologia e um debate moral em torno desta inovação que não temos no nosso mundo e tempo, mas que provoca uma perturbação em algo que já conhecemos bem. Exemplo de algumas histórias minhas que são ficção científica: Em Não Esqueça, criam uma cirurgia para apagar a memória de quem partiu, mas será que um mundo sem luto é um mundo melhor... ou só um mundo mais adormecido? Já em Ciborgues, homens matam suas esposas para depois colocarem seus cérebros em robôs, se apoderando daquelas entidades. Será que não haveria isso no mundo, considerando os índices altíssimos de feminicídio?

Já a fantasia temos um sistema de magia que pode ser "hard" ou "soft", isto é, com regras super explicadas sobre o custo dessa magia e como funciona ou não. Quanto mais explicativa, mais "hard" se torna. Há autores que dizem que a nossa capacidade de resolver problemas com a magia é proporcional a quanto podemos explicá-la, mas há controvérsias. Um bom livro que desafia essa regra, na minha opinião, é Enraizados.

Agora, tem um ponto nebuloso na resposta que eu te dei: e se o livro tiver tanto um sistema de magia quanto um sistema de tecnologia? Vou deixar para responder em outro momento isso daqui.

 

2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?

Eu acredito que há histórias que puxam mais esse local de debate moral em torno do uso de uma tecnologia específica (que aqui incluo alguns tipos de linguagem inclusive) e outros que vão para um sistema de magia. No geral, sinto que minhas ficções científicas são mais áridas e menos solares que minhas fantasias. Não que as fantasias e romantasias que escrevo sejam lá muito solares... mas enfim, isso é algo que sempre me entregou. Será que um dia vou conseguir escrever um scifi otimista? Ou uma fantasia tão árida quanto minhas ficções científicas? Não sei.

 

3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?

Tenho! Adorei ver essa pergunta por aqui: olha, eu fui adolescente no momento que as distopias jovens explodiram, então eu peguei muitas delas. De Jogos Vorazes, que é super conhecida, até obras que quase ninguém conhece como Marcada, Delírio, Reiniciados. Gostei muito de 3% (nacional) e Fundação (séries que assisti recentemente). Gosto de Duna também. Nacional, amei Senciente Nível 5 da Carol Chiovatto e estou para ler A Conspiração da Memória, do Guilherme Rezk.

 

4) Você desenvolveu na sua tese o ciclo “da vítima ao monstro” tratando da figura de protagonistas femininas. Pode explicar resumidamente essa ideia e se você acha que ela pode ser aplicada a histórias de ficção científica ou se acha que os temas mais comuns de ficção científica não dão tanta margem para explorar esse tipo de arco de personagem?

Basicamente, Da Vítima ao Monstro é uma estrutura que analisa padrões na jornada de sobrevivência de personagens femininas que resistem a ambientes hostis. Eu gosto de pensar nela como uma força propulsora para escritoras como eu analisarem suas próprias histórias, desenvolvendo a consciência narrativa, mas não propriamente seguindo-a como guia, porque vejo que isso atrapalha a autonomia artística.

Vejo que pode fazer sentido também na ficção científica, tanto que um dos livros que analisei na tese é uma distopia chamada O Poder, da Naomi Alderman. A jornada da personagem Roxy se encaixa de uma forma que me deixou assombrada (até fiz uma tabela comparando ambas as trajetórias na tese de doutorado).

Por outro lado, vejo que poderia ter desenvolvido mais a estrutura, propondo desenvolvimentos de personagem que fossem para uma linha mais virtuosa ou viciosa. Atualmente, ela acaba prezando por um equilíbrio que nem sempre é possível ou recomendado chegar, a depender da mensagem da história.

 

5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?

Hoje, eu provavelmente falaria mais de linguagem, de inteligência artificial e como os caminhos para uma vida criativa podem estar se limitando pouco a pouco, devido a certas lógicas do capitalismo selvagem. Acho que hoje a linguagem tem se tornado uma nova obsessão minha. A sua relação com a intuição e novas formas de saber... não sei, acho que daria caldo para uma boa história.

 

6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?

Tenho, mas o que percebo é que as violências são diferentes. Quando vou para fantasia, e uma fantasia que gosto de denominar "romantasia", rola um certo embaraço. Como se não soubessem porque estou perdendo tempo com esse gênero se podia ficar no scifi, que costuma ser mais cerebral.

Quando vou para o scifi, eu sinto que preciso lutar para conseguir um espaço, sim, mas me surpreendo com a presença elevada de leitores homens vindo conversar comigo sobre a história. Não sei se me impressiono por algum complexo de inferioridade escondido, uma misoginia introjetada, porque eu costumo ler homens o tempo todo sem nenhum problema. Desconfio também que se tivesse mais romance nos meus scifis, eu não teria tantos leitores homens, mas só vou saber após republicar o Não Esqueça.

 

7) Você tem bastante sucesso comercial com suas romantasias e tem sucesso reconhecido através de prêmios literários com suas ficções científicas. Como você lida com essa dualidade do reconhecimento da sua literatura? Acha que de alguma forma a sua expressão autoral em um gênero poda o outro?

Isso já aconteceu mais no passado.

Eu tinha muito medo de inserir sexualidade nas minhas histórias por medo de não ser levada a sério. Hoje penso que a coisa que mais levo a sério nas minhas histórias é a sexualidade e como estou trabalhando aquilo, através das relações entre os personagens. O amor é também uma forma de conhecimento, de sabedoria, o livro "Em defesa do amor" foi bem curativo nesse sentido.

As histórias que mais gosto de ter escrito e ainda não publiquei são sobre prostitutas ou mulheres colocadas nessa situação, mas não são tragédias. São, como diz a Fernanda Castro, fantasias de poder, onde sexualidade, magia e poder se infiltram de tal modo que você não consegue desembaraçar sem perder o fio da história (de um modo parecido como romance e magia se comportam na romantasia).

Eu gosto muito dessas histórias e como eu precisava deles na minha formação como mulher.

Outra coisa que veio muito forte esse ano para mim foi a mudança no meu olhar sobre prêmios. Antes, eu os via como uma permissão para seguir em frente. Hoje, não mais. Por vezes, tem uma história que acho que se daria super bem num prêmio e não rola, daí depois acabo ficando sabendo que quase rolou, e por um motivo ou outro (completamente fora do meu controle), não foi para a lista final dos selecionados. Tenho para mim que depender apenas de prêmios para escrever é como querer ser a filha favorita de um pai que não te respeita, mais uma das muitas armadilhas do nosso mundo.

Adoro escrever sobre mulheres se amarrando e se libertando dessas armadilhas, mas vivê-las na própria vida custa muita energia (inclusive psíquica) para se libertar.

 

8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?

Com certeza.

Eu fui filha única de uma funcionária pública, então tive a estabilidade financeira e a solidão necessária para ficar horas e horas sozinha no quarto, pensando e refletindo. Ia para a Saraiva (livraria de rua) depois do almoço e não sei como não me expulsavam, porque ficava umas três horas por lá enquanto minha mãe ia "ver as modas". Eu amava as histórias que descobria ali, e como muitas vezes não comprava os livros no dia, ficava aquele sentimento maravilhoso do vazio, do que poderia ter acontecido. Descobri várias distopias assim. Estava na época da explosão das distopias jovens, em que o amor era proibido, ou você tinha que casar com o que uma máquina feita pelo governo determinava. Sou muito grata por esses momentos, foi realmente uma escola.

Eu ia para casa e continuava a pensar nisso. Acho que Não esqueça nasceu desses momentos junto com o meu acesso às distopias mais clássicas também.

 

9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?

Eu posso estar falando uma grande besteira, mas sempre senti que era mais fácil encontrar autoras mulheres também na fantasia. As distopias jovens desviaram disso, claro, mas caiu em algo que você comentou no Rio Neon de que alguns anos atrás, tudo que uma mulher escrevia era YA. E talvez nem todas aquelas distopias jovens que lia deveriam ser assim (e elas eram em sua maioria escritas por mulheres).

Depois, acho que como o scifi está num lugar tido como mais cerebral e ainda não criamos meninas para serem inteligentes (no sentido de que ainda há uma obsessão pela aparência das meninas, e vários muitos ganhos secundários em relação a isso), há uma parcela menor que é estimulada a seguir esse caminho. Fico pensando no que a autora de Jogos Vorazes fez pelas leitoras de distopia, porque ela foi a porta de entrada de muitas.

 

10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?

Mais polêmica ainda, vou falar: conheço pouquíssimo de Star Wars! Alvaro traduziu um livro para Bertrand da coleção no ano passado e eu ficava boiando. Eu achava que nem gostava de spece opera até ler Senciente Nível 5. Mas quero conhecer, de verdade, sinto que essa é uma grande lacuna ainda.

E foi esse ano que conheci (e me apaixonei) por Fundação.

Programação Filhas de Ursula 08/03.

É nesse domingo, dia 08/03/2026!

Então, se você estiver planejando assistir, aqui vai o cronograma do dia:

10:30 – 12:00: Mesa de debate com as autoras! Essa será transmitida pelo canal do Fantástico Guia no YouTube, e ficará salva depois.

13:00 – 17:00: Oficina de escrita (ministrada por mim)! Essa ocorrerá apenas presencialmente, e se você se inscreveu no nosso formulário, muito em breve vai receber nossa resposta de confirmação. Esperamos para responder para entender o quanto conseguiríamos esticar as vagas disponíveis.

Sorteio de livros: As editoras Aleph, Rocco e Planeta gentilmente nos apoiaram para esse evento cedendo livros para sorteamos entre os presentes! A chance de ganhar um livro de graça mais do que compensa sair de casa num domingo, concordam? Vamos sortear logo depois da mesa para quem estiver no local.

Câmbio, desligo?

E com isso fechamos todas as autoras entrevistadas (até o momento)! Eu convidei mais autoras para esse projeto, todas toparam mas conflitos de calendário interferiram um pouco e algumas das convidadas não conseguiram responder a entrevista ainda. Então, como ficamos? Particularmente, não estou pronta para encerrar o Filhas de Ursula, mas também não sei ainda no que transformá-lo. Um clube de leitura? Um grupo de discussão? Uma newsletter por si só? Não sei, preciso pensar e preciso de tempo. Preciso de um período para planejar os próximos passos e também preciso de mais horas no dia porque além do ofício de escritora também estou acumulando meus trabalhos acadêmicos junto da criação de um bebê descobrindo o mundo, não dou conta de manter (com qualidade) envios de textos semanalmente — estou, na verdade, impressionada que os textos do Filhas quase não atrasaram e dei conta até de enviar dois por semana em alguns casos. Pode me dar um tapinha nas costas, mas não me pergunte como eu dou conta, eu também não sei. Provavelmente tem a ver com o fato de eu ser louca e ter perdido o juízo nas madrugadas de amamentação. O que eu sei é que quero continuar fomentando a ficção especulativa escrita por mulheres brasileiras, acenar para as companheiras que encontro nas encruzilhadas literárias e oferecer um gole d’água.

Então, por enquanto é isso que pretendo fazer: com a entrevista da Carol encerro a Primeira Temporada do Filhas de Ursula. Vou ficar aguardando as respostas de outras autoras que me disseram que queriam muito responder, e também as respostas de algumas participações especiais. E em algum momento (ainda desse ano, espero) retornaremos com uma segunda temporada. Um Filhas de Ursula 2, o inimigo agora é outro. Ou Mais Filhas, Mais Ursulas. Ou... [insira aqui seu trocadilho favorito com títulos de filmes]. Nesse meio tempo, posso também usar o selo do Filhas para indicar livros e compartilhar pensamentos sobre algumas leituras, ou quem sabe até ceder a palavra para alguma colega?

Agradeço imensamente todas as colegas escritoras que cederam seu tempo e mente para participar desse projeto, seja de forma online topando a entrevista e compartilhando os textos, seja de forma presencial arrumando um tempo para participar do debate nesse domingo, dia 08/03. É parte da minha crença pessoal que comunidades são mais fortes do que indivíduos, e espero estar ajudando colocando bons tijolinhos na parede dessa casinha. E também agradeço a você que chegou para acompanhar esse projeto! Espero que fique. Envio os textos do Filhas através da minha newsletter pessoal, Luas e Marés, que normalmente é bem menos movimentada! Se você ficar por aqui, prometo não lotar sua caixa de entrada! Se decidir partir, vou entender e espero nos vermos novamente depois.

 

 

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