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Filhas de Ursula #8
encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Nas encruzilhadas de hoje...
O ET de Varginha e outras formas de vida fazem companhia para a entrevista com a autora Luana Cruz.
Dramas familiares
Hoje mais uma vez desvio um pouco do assunto.
Eu já devo ter dito isso tantas vezes em eventos e em redes sociais que se você me acompanha há algum tempinho provavelmente sabe: eu morria de medo do ET de Varginha. 30 anos atrás a jovem Lis assistia Fantástico demais e acompanhou todas as matérias sobre o aparecimento de um extra-terrestre num terreno baldio da cidade de Varginha-MG, e todas as reconstruções de autopsias de ETs que foram exibidas em decorrência.
Nos últimos dias decidi assistir ao documentário (em 3 capítulos, no Globoplay) para ver o quanto eu me lembrava corretamente, e acabei descobrindo duas coisas. A primeira é que a minha memória dessa época é bem próxima do que foi a realidade, as partes que eu sabia eu me recordava quase com exatidão — não seria um grande medo de infância se não tivesse ficado permanentemente gravado no meu cérebro ansioso, não é mesmo? A segunda é que a história toda é sensacional. Agora, olhando com a distância de quem sabe que o ET de Varginha não vai escalar o muro do terreno baldio atrás da minha casa para roubar as minhas revistinhas da Turma da Mônica, fiquei muito envolvida pelas tramas extremamente humanas ao redor do ET.
Não vou entrar no mérito do aconteceu ou não aconteceu. O documentário faz um ótimo papel em deixar claro que pode ser mentira, mas também pode ser verdade (e tudo contado com sotaques mineiros, o que aumenta tanto o ar de assombro quanto de causo de pescador da história), mas talvez seja invenção, mas pareceu real... fica a seu critério acreditar. Já não dizia o poster em Arquivo X: “I want to believe/Eu quero acreditar.”? Um dos próprios ufólogos entrevistados fala com todas as letras: é o mistério, o mistério vende, contar toda a verdade como aconteceu não vende.
Inclusive, uma terceira descoberta foi que uma das meninas que viu o ET hoje em dia dá palestras sobre o encontro em reuniões de ufólogos. Eu, demonstrando que não desconstruí totalmente meus preconceitos vira-latistas, não sabia que no Brasil tínhamos uma comunidade de ufólogos TÃO atuante assim. Imaginava que nossos ufólogos eram majoritariamente grupos de pessoas chegadas numa teoria da conspiração debatendo tudo pela internet. Não visualizava pessoas usando camisetas com a estampa do ET de Varginha.
Então some aí uma quarta descoberta: o causo gerou muito dinheiro.
Talvez eu não devesse estar surpresa, é verdade. Outra frase do mesmo ufólogo mal humorado: ufologia virou mercado. Vendo as cenas de Varginha atualmente dá pra entender exatamente o que ele quis dizer, com estátua de disco voador e ET, miniaturas e até um turista reclamando que não tinha uma placa no terreno baldio que aquele era o lugar da aparição. E aí nesse contexto vem a fala de uma das meninas, atualmente já mulher adulta com filhos e até neto, sobre como muita gente ganhou muito dinheiro com o ocorrido, mas elas até hoje têm só a história pra contar.
Não vou aqui narrar o documentário inteiro e nem analisar a história toda como se fosse ficção porque confesso que fiquei tocada pelos desabafos das três sobre como a vida delas foi negativamente impactada. Também criei um respeito sólido pela mãe de duas delas, que não apenas bateu no peito e foi até o fim defendendo que não estavam mentindo, como saiu de casa com um facão pra mandar gente embora da casa delas em função de tudo que aconteceu depois.
Mas quis trazer isso tudo pro texto de hoje porque é mais um pontinho no bordado da relação do brasileiro com o especulativo, algumas vezes ganhando conotações mais reais e outras mais impossíveis. E, especificamente, porque tudo gira em torno de uma pergunta que me aterrorizava e fascinava e que foi mais um empurrão para me jogar na ficção especulativa, a maior de todas as especulações: estamos sozinhos no universo?
É possível que o fatídico causo de Varginha tenha sido o estopim do meu medo e da minha curiosidade impossível de ignorar. Me considero uma pessoa bem medrosa, mas assisti e reassisti diversos dos filmes e séries que tocavam nessa questão. Independence Day, Sinais, Contato (meu segundo favorito dessa lista), E.T., Evolução (sim, aquela comédia questionável), todos do MIB, A chegada (o melhor dessa lista), Stargate, Arquivo X. Esse é um braço da ficção científica que não me alcançou através dos livros, mas acho curioso que uma das grandes dúvidas da humanidade tenha inspirado tantos filmes que se tornaram famosos e ao mesmo tempo não seja um tópico exaustivamente trabalhado nos livros de ficção científica.
Pelo menos, nos livros do gênero que me marcaram, a questão já está superada: ou já temos ampla convivência com outros seres, ou somos o único planeta detentor de vida e é isso.
Dos filmes mencionados, queria destacar Contato e A chegada por terem protagonistas mulheres, mas não apenas isso, por terem um tema em comum: a própria humanidade. Em larga escala, sim, o conjunto de todos os humanos precisando conversar e decidir o que pensar sobre o fato de seres de outro planeta estarem tentando se comunicar conosco. E também na humanidade mais íntima possível, aquela que nos move a tomar decisões que nem sempre são lógicas e apelam para um senso emocional bem mais difícil de explicar. Em ambos os filmes as protagonistas estão realizando Algo Maior, sim, pelo (suposto) bem da espécie, e ao mesmo tempo estão lidando com perdas e amores tão grandes que as respostas para seus dilemas pessoais precisam da interação com outras espécies.
Particularmente, não tenho muita paciência mais para perspectivas heroicas de como alguns soldados e cientistas salvaram nosso planeta sendo invadido por uma espécie tecnologicamente superior a nós tentando nos dominar. Essas histórias na verdade falam muito mais sobre o pavor da sociedade ocidental de sofrer o que causou aos povos da África e da Ásia por tantos séculos, falam do nosso passado muito mais do que especulam sobre nossas companhias no universo.
A chegada é um filme mais recente, eu já havia feito a minha escolha de carreira quando foi lançado. Contato eu vi criança, e revi adolescente, e vi e revi muitas vezes. Uma mulher cientista orgulhosamente perseguindo uma resposta apesar da zombaria inicial foi uma imagem poderosa para a minha formação de personalidade. A incorporação da irracionalidade que ambos os filmes trazem é uma (tentativa de) perspectiva diferente, uma fuga da lógica humana corriqueira, um convite ao estranhamento de peito aberto a todas as possibilidades.
São histórias que vão além de um olhar pessimista e distópico sobre o futuro, nem tentam representar uma versão ultratecnológica dos mesmos problemas sociais vividos atualmente. Muito menos ficam presas na distância tecnológica entre nós e os “outros”. São histórias que apelam tanto para a nossa curiosidade e senso de mistério quanto para a intimidade do nosso coração. O filme Interestelar vai também nessa linha, e apesar de eu ter minhas críticas a usar o poder do amor como uma força literal do universo, confesso que gosto dessa ousadia de contar uma história de ficção científica que não tem medo de parecer só mais um drama familiar. Algumas vezes dramas familiares atravessam órbitas, e tá aí o livro Fortunato Poeira da Anna Martino que não nos deixa mentir. (Star wars é um grande drama familiar, inclusive.)
A fantasia, enquanto gênero literário, parece ter perdido esse medo faz bastante tempo. Romantasias e as cozy fantasies (literalmente “fantasias aconchegantes”) vêm numa crescente já não é de hoje. Espadas e magia e uma boa dose de sentimentos, por que não? Salvar um coração partido é tão grandioso quanto salvar um reino, e na maioria das situações ambos os salvamentos andam de mãos dadas. A ficção científica num primeiro olhar ainda parece muito preocupadas com questões de larga escala, e nem tanto com as conexões humanas que poderiam evitar problemas sociais em primeiro lugar.
Acho que seria um exagero e uma forma de preconceito dizer que as autoras mulheres são mais afinadas a esses assuntos. Acho que algo mais próximo da verdade é que a maioria das mulheres não tem vergonha de escrever histórias sobre coisas pequenas, sobre amores mundanos e criaturas sem importância no grande esquema das coisas. Aqui cito como exemplo a autora de ficção científica e de fantasia Connie Willis, que usa a tecnologia em suas histórias que na verdade são voltadas para falar de psicologia humana, ciências sociais, história, e, também, amor. Ela tem histórias premiadas consideradas “sérias”, mas tem também Conexões, que fala basicamente do que aconteceria se os membros de casais pudessem fazer uma cirurgia que permitisse que lessem as mentes um do outro (entre outras coisas). Numa outra dimensão, Os diários de um robô assassino de Martha Wells também é uma história “pequena”; nada de grandes corporações, nada de grandes destinos ou de salvar o universo, apenas um robô querendo assistir as séries em paz e sendo interrompido pela própria empatia para ajudar um monte de humanos terrivelmente inconvenientes precisando de resgate toda hora. Becky Chambers também brinca nesse parquinho do microcosmo das relações humanas (e alienígenas) em A longa viagem a um pequeno planeta hostil, focando muito mais nos dramas de cada personagem do que numa “grande missão de extrema importância para a raça humana”.
Estou finalizando esse texto em dias de bombardeios e mais uma escalada bélica no Planeta Terra, me sinto ingênua e idealista de pensar que se reconectar com a própria humanidade é uma missão de extrema importância para a raça humana. Todos os dias ocupamos nossa vida em escalas muito diferentes, nos desesperamos com o mundo que conhecemos se desfazendo enquanto celebramos conquistas pessoais, nos indignamos em coletividade e nos consolamos nas conexões mais próximas, os dramas mundiais e os dramas familiares disputam espaço no nosso sofrimento, confrontamos constantemente o sobreviver com o viver. Uma das formas que eu conheço de manter a sanidade nessa corda bamba é através da arte, e sobretudo através da ficção.
A ficção pode se dar ao luxo de olhar para as pequenas formas de vida orgânica povoando aos bilhões um planeta mais água do que terra e se ocupar de pensar sobre as relações delas. Entre si, com outras formas de vida no mesmo planeta, com formas de vida vindas de outros planetas. Principalmente, a ficção pode ser dar ao luxo de imaginar essas relações complexas sem um rastro de destruição.
Novamente penso nas mineiras que ficaram famosas como “as meninas do ET” e mesmo assim precisam vender pão de queijo pra pagar as contas. Penso na rixa entre ufólogos, no médico que resolveu falar depois de 30 anos porque passou por uma experiência de doença grave, nos mecânicos da oficina ao lado do terreno baldio. Nada disso é ficção, é apenas a vida se desdobrando depois de um acontecimento misterioso. Mas se fosse ficção, quem contaria essa história e como? Quem lançaria um olhar mais doméstico, quem trataria do tema de forma mais introspectiva, quem criaria uma grande aventura com ação do início ao fim? Como você escreveria?
Não tenho essa resposta na ponta da língua assim como também não sei dizer se estamos sozinhos no universo ou não, só o que tenho é a afinidade por esses mistérios costurados com a insignificância das vidas pequenas e seus dramas familiares. Esses mistérios que deixam uma menina com medo de perder seu bem mais precioso, as revistinhas. Portanto, não tenho uma grande conclusão para esse texto, só quis aproveitar a oportunidade para comentar um pouco do que anda povoando minha cabeça enquanto toco esse projeto nesse ponto do tempo-espaço. Algumas vezes o Filhas de Ursula parece algo bem ínfimo diante dos acontecimentos históricos desfilando diariamente nos telejornais, e nessas horas preciso me cutucar e me lembrar de como as coisas ínfimas me enchem de felicidade.
Eu me aproveitei da entrevista da Luana Cruz pra trazer esse assunto também porque o livro que ela vai lançar traz um pouco de tudo isso, então fiquem agora com as respostas dela. E, não se esqueçam de pensar em perguntas para fazer para ela na nossa edição especial do Filhas de Ursula no dia 08/03 porque Luana está entre as autoras presentes na nossa mesa-redonda.
Entrevista Luana Cruz

Luana nasceu como contadora de histórias. Nascida em uma família com as mais diversas delas, cresceu ouvindo para aprender a contar e, um dia, protagonizar, embora diga que só protagoniza comédias românticas. Formou-se em Engenharia de Pesca, porque também acha que as melhores histórias são as de pescadores. Navegou de Belém do Pará para São Paulo com vários sonhos na bagagem, sendo a escrita o maior deles. Lança sua ficção especulativa amazônica "Operação Colares" em 2025 pela Plataforma 21.
1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?
Uau, já começamos com a pergunta mais difícil. Posso pedir ajuda aos universitários? Tô brincando. Acho que pra mim a palavra que define tudo é especulação. Vamos tratar ela como uma métrica: toda ficção especulativa, o termo guarda chuva para os gêneros de fantasia e ficção científica, tem uma escala de 0 a 10 de nível de especulação. Quanto mais próximo do 10, mais próximo você tá da fantasia. Mais próximo do zero, do scifi. Acho que pra mim, nenhuma história é uma coisa só. Se eu escrevo sobre uma máquina do tempo, há uma base científica (na maioria das vezes), mas também é uma especulação de que essas viagens possam existir. Se eu escrevo sobre um universo mágico em que as pessoas tem magia que passa através do sangue, ela também se apoia em genética transmitida, que é uma verdade. Tudo é um emaranhado de coisas, o subgênero só demarca o nível de especulação. E há, claro, histórias que brinca entre esses níveis - essas são minhas favoritas.
2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?
Eu acho que gosto de brincar entre esses níveis, mas definitivamente tendo a ser menos especulativa. Antes de ser contadora de histórias, eu sou uma grande ouvinte delas. Tudo que eu escrevo é formado por coisas que ouvi, li e vi. Adoro colocar no papel verdades que só são contadas quando você tá tete a tete com quem as viveu. O floreio fantástico vem muito mais das vozes que ouvi do que das coisas que inventei quando escrevi e eu acho que essa é a magia de verdade nas minhas histórias.
3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?
Eu me sinto traindo livros assim, veja só, mas algumas vem imediatamente na cabeça: Matéria Escura do Blake Crouch mudou minha vida, eu mal conseguia respirar; Árvore Inexplicável da Carol Chiovatto não é uma ficção científica, segundo ela própria, mas ela é o exato meio termo entre fantasia e ficção científica e eu me sentiria errada se não citasse (ela tem minha cena de ação favorita na história!); eu gosto muito de Romantífica do Thiago Ambrósio Lage que sempre divide meus suspiros entre "que fofura" e "meu deus!"; e por fim, não posso deixar de citar A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil da Becky Chambers. Uma vez uma pessoa disse que minhas histórias lembravam as da Becky e esse foi o melhor elogio que eu recebi na vida. Ah, e Júlio Verne! E ASSIM QUE SE PERDE A GUERRA NO TEMPO! E City of Ember que me fez começar a escrever... Sinceramente, Lis, isso é desumano, nunca mais me faça essa pergunta de novo.
4) Você tem um lançamento esse ano pela Plataforma 21! O que você pode contar sobre a história de “Operação Colares” e as influências por trás dela?
Operação Colares é intrinsecamente a união dos dois tipos de histórias que eu mais amo na vida: as de família e as de pescador. Fui rodeada de contadora de histórias e esse livro é exatamente o que eu tinha em mente quando, já adulta, pensei que queria escrever uma história um dia. No livro, a gente tem a Laila, que teve que retornar pra ilha de Colares pra se despedir de uma pessoa muito importante da sua vida. Seu plano era claro: ficar até no máximo a missa de sétimo dia, mas tudo cai por terra quando ela recebe uma carta misteriosa de seu avô: um pescador que desapareceu durante a infame Operação Prato, uma missão militar na década de 70 pra investigar OVNIs no espaço aéreo amazônico. Os sete dias pacatos se tornam em uma grande investigação junto dos irmãos Raiol: Felipinho, um pescador que trabalha pra pagar uma dívida de família e Elis, uma professora local e também o grande amor de infância de Laila.
5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?
A ficção científica que eu tô escrevendo HOJE tem muito do entorno (olha só!). Minha cidade acaba de receber um dos maiores eventos pra falar de meio ambiente do mundo, cheio de inovações, lideres políticos, mas também cheio de bloqueios para a comunidade entrar e aumentar sua voz. A mesma população que mais sofre quando um super rico entra na Amazônia e quer extrair minério. Parece que o tempo todo vivemos uma grande corrida: todo mundo quer chegar a um novo grande recurso primeiro e não importa o custo, se são vidas de poucos ou de muitos e, no final, a única coisa que não conseguimos controlar vira moeda de troco - o tempo. Seja o restante que temos pra ainda manter nosso planeta saudável no futuro, seja o passado pra identificar exatamente onde erramos. Acho que isso tudo é sem dúvida o que vem por aí.
6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?
Essa percepção é tão forte que, honestamente, não sei como ainda não é um dado confirmado. Volto até com outra pergunta: a fantasia escrita por mulheres é mais bem recebida ou é só porque a gente teve um boom de romantasia que é um subgênero majoritariamente feminino? Toda fantasia por mulher é bem recebida? Não quero sentir que temos que criar um subgênero pra sermos bem percebidas - quero que toda ficção escrita por mulher seja vista. Ponto. Mas sendo uma grande pessimista, as vezes penso se esse não é o único caminho. Espero que não seja.
7) Você vem de uma formação que pouca gente conhece, imagino. Você tira algo do conhecimento de Engenharia da Pesca pra sua escrita?
Eu nasci em um arquipélago então é fato de que boa parte da minha vida foi vivida na beira de um rio, mas a graduação mudou tudo: a Engenharia de Pesca tem a proeza de ter exatas, biológicas e ciências sociais/humanas na mesma graduação. E embora eu tenha vivido na água, foi só na graduação que eu passei a viver para além da capital do meu estado e eu posso garantir que existem histórias impactantes que a Engenharia de Pesca me trouxe. Operação Colares se passa na Ilha de Colares; a próxima história eu estou navegando em Barcarena. Minha graduação deixou de ser um diploma na parede pra ser parte da minha narrativa desde o momento que eu decidi escrever e deixar que as águas me levassem para a próxima história. Em Operação Colares vem muito do aspecto de ter estudado aspectos socioeconômicos de comunidades pesqueiras e embora nada seja uma verdade absoluta, tenho orgulho de ter vivido essa experiência e poder transpor tudo na ficção.
8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?
Que engraçado, acho que nunca tinha pensado sobre isso. Eu cresci em um ambiente familiar que incitava muito a imaginação e histórias fantásticas, com toda a certeza. Me faltaram livros, mas nunca me faltaram histórias. Alguns dizem que a gente é ateu até pisar na Amazônia e isso é, em parte, verdade. Estamos cercadas do extraordinário e este acaba se tornando cotidiano. Nunca me faltou fantasia, mas nesse embalo de sempre estar perto do fantástico, eu me tornei uma pessoa muito questionadora: minha vida não se aproximava do conto de fadas das histórias que ouvi. Não tô aqui pra dizer que minha vida foi difícil, mas sem dúvida ela não foi fácil. Foi uma vida cercada de perdas de vários ângulos do que essa palavra pode ser. Em algum momento, me irritei com a possibilidade do fantástico porque me parecia ser muito distante e comecei a me questionar como eu poderia trazer algo palpável para o fantástico? Me aproximei da ficção científica nesse processo. Como já disse, gosto de histórias que me façam duvidar se são verídicas ou ficção e acho que parte de mim só está buscando escrever histórias que não só digam que a vida é fantástica, mas que provem por A+B que elas podem ser.
Acho que essa vai pra terapia.
9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?
Eu acho que a resposta pra isso é muito fácil e acho que ela vem baseada em dois pilares: um deles, não atrelado a literatura, é o mesmo motivo pelo qual a gente escuta que mulher tem que fazer arquitetura, não engenharia. Mulheres não são feitas para ciências e matemática e ficção científica é um gênero muito atrelado essas disciplinas. Não é uma verdade, mas é um estigma cultural e como tudo que está grudado na nossa visão de ver o mundo, é dificílimo de quebrar. Espero fazer parte dessa ruptura. A segunda, totalmente relacionado a literatura, é que se criou a ideia de que mulheres só lêem romance e romance só é feito para mulheres. Nem preciso me alongar, né? Já temos um desinfluenciador que achou de bom tom pontuar gêneros que são amplamente consumidos por mulheres nos deixam pessoas mais burras (não consumi-los, não impediu ele de ser burro, porém). Acredito que esses dois paradigmas se quebraram pra alguns outros gêneros, mas pra ficção científica, ainda há um caminho enorme.
10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?
HAHAHAH. Posso pular essa? Vou ficar em cima do muro e dizer que é um space opera, portanto...
Programação Filhas de Ursula 08/03.
Está chegando! Meu projeto ínfimo vai ter uma edição presencial ao vivo e a cores e talvez não seja tão ínfimo assim!
Então, se você estiver planejando assistir, aqui vai o cronograma do dia:
10:30 – 12:00: Mesa de debate com as autoras! Essa será transmitida pelo canal do Fantástico Guia no YouTube, e ficará salva depois.
13:00 – 17:00: Oficina de escrita (ministrada por mim)! Essa ocorrerá apenas presencialmente, e se você se inscreveu no nosso formulário, muito em breve vai receber nossa resposta de confirmação. Esperamos para responder para entender o quanto conseguiríamos esticar as vagas disponíveis.
Sorteio de livros: As editoras Aleph, Rocco e Planeta gentilmente nos apoiaram para esse evento cedendo livros para sorteamos entre os presentes! A chance de ganhar um livro de graça mais do que compensa sair de casa num domingo, concordam? Vamos sortear logo depois da mesa para quem estiver no local.
Câmbio, desligo.
No próximo texto vamos conversar sobre uma entidade misteriosa que assombra a vida de diversas autoras. Também vamos conversar com uma autora versátil e que por acaso é minha vizinha.
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