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Filhas de Ursula #7
encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Nas encruzilhadas de hoje...
Nomeamos autoras brasileiras de ficção científica e conversamos com uma autora muito atual e atuante, Aline Valek.
Gigantas
Como disse a ilustre Cláudia Fusco na entrevista do Filhas de Ursula #4, é praticamente consenso que a obra que deu o pontapé para ficção científica como gênero foi Frankenstein de Mary Shelley, em 1818. Muito tempo antes de Mary e seu Prometeu moderno, tivemos também Margaret Cavendish com “Mundo resplandecente”, em 1666.
(Suspeito que Shelley todos vocês conheçam, mas Cavendish é um nome menos conhecido pelo grande público. Não vou entrar em detalhes sobre ela para não alongar o texto, de todo modo recomendo que leiam o material de apoio a leitura de “Mundo resplandecente” preparado pela Aline Valek para o Clube de Leitura Bobagens imperdíveis, que traz muita informação e contexto sobre a autora e o livro.)
Ou seja, entre as duas temos aí duas mulheres de séculos passados que estiveram nas raízes de um gênero literário que hoje precisa ser reconquistado pelas e para as mulheres contemporâneas. Muitas interpretações podem ser tiradas dessa linha do tempo, mas o que eu gostaria de apontar no texto de hoje é: dizer o nome delas é importante. Continuar mencionando e repetindo os nomes das que vieram antes de nós não apenas honra a memória das precursoras, como também fortalece o nosso espaço agora.
De tempos em tempos um fenômeno curioso acontece. Quando alguém de alguma minoria ou de um grupo marginalizado de alguma maneira realiza um Feito Notável, aparece gente (bem intencionada ou não) comentando de forma efusiva “finalmente [insira aqui um grupo de sua preferência] Fez Isso!”, e aí gera-se um discurso que dá a entender que essa pessoa chegou num lugar que era tudo mato e capinou o lote sozinha. E isso não é sobre merecidamente exaltar os feitos notáveis, e sim sobre reconhecer que terem havido outros antes não diminui em nada os de agora.
Toda vez que uma mulher faz algo incrível e é tratada como “a primeira mulher a conseguir”, o que a sociedade está fazendo é apagar o feito de outras e com isso reforçar a narrativa de que as poucas que conseguem o fazem apesar de serem mulheres, reforça a ideia de que somos seres naturalmente menos capazes. Vocês sabiam que a Netflix foi processada pelo “Gambito da Rainha”? A rede foi processada porque a série conta uma mentira: que a grande mestre Nona Gaprindashvili nunca ganhou de homens. A série diz isso para elevar os feitos da personagem principal, Beth. E tudo bem, a série é uma ficção... mas é uma ficção que cita nomes e acontecimentos reais. Por que foi aparentemente necessário diminuir os ganhos de Nona para exaltar Beth? Ser a SEGUNDA mulher a ganhar de homens nos torneios gerais de xadrez seria por acaso menos impressionante? Ou, talvez, seria algo perigoso deixar as pessoas pensando que poderia haver terceiras, quartas, quintas....? Tenho certeza que os responsáveis pela série como um todo, incluindo a equipe do roteiro, não foram maquiavélicos a esse ponto. Muito provavelmente foi algo escrito sem pensar muito sobre o caso porque... “sei lá, o mundo é assim”. A exaltação das exceções é lugar comum em sistemas que operam com pequenas e grandes opressões. As exceções alimentam sonhos, mas não nutrem a concretização desses objetivos. As exceções ajudam a pensar “eu poderia fazer isso...”, mas é na regularidade que se pensa “eu posso fazer isso”. As exceções criam outras exceções, mas a ocupação consolidada cultiva uma comunidade crescente.
Por isso, é importante para mim que vocês saibam que as escritoras que estão vendo aqui nas entrevistas não são as únicas autoras brasileiras de ficção especulativa e certamente não são as primeiras, e espero que de forma alguma sejam as últimas.
Como eu disse, se o fruto principal do Filhas de Ursula fosse que as pessoas conhecessem pelo menos uma autora nova, eu já ficaria feliz. Mas se ele servisse para atrair mais autoras pra festa, seria realmente uma realização. Eu venho da área acadêmica e de uma cultura laboratorial muito voltada para formar pessoas, formar novos cientistas, gerar estrutura e base para pessoas que virão depois de mim e que se beneficiem do meu trabalho no laboratório. Sei que não é esse projeto que vai mudar definitivamente a vida de escritoras de ficção científica no Brasil, e mesmo assim espero que alguém acompanhando o Filhas decida que vale a pena tentar, assim como eu decidi alguns anos atrás.
Então, quem são as nossas precursoras? Além de Ursula Le Guin, Margaret Cavendish, Octavia Butler. Quem são as brasileiras que colocaram o Português no gênero?
As primeiras histórias que pendem para o lado da ficção científica aparecem no Brasil no final dos anos 1860, escritas por diversos autores, dentre os quais podemos contar Machado de Assis. Dessa época temos um nome feminino que se sobressai o bastante para ficar marcado na história, que é Emília Freitas, autora de A Rainha do Ignoto, que foi publicado em 1899. Cearense, poeta, professora, ativista pela abolição junto da Sociedade das Cearenses Libertadoras, e também pioneira da ficção especulativa no Brasil. A Rainha do Ignoto não apenas é uma ficção científica, como também é uma obra bastante feminista, que retrata uma organização secreta de mulheres liderada por uma mulher misteriosa de passado trágico. Cheia de mistério e de um clima quase de espionagem criado pelo ponto de vista do narrador, que está tentando descobrir a verdade sobre a Rainha do Ignoto porque se acredita apaixonado por ela, essa história nos entrega uma personagem feminina complexa que mantém uma sociedade utópica. Vale muito a leitura, e não apenas pelo valor histórico de conhecer uma obra precursora.
Depois de Emília, a próxima autora de ficção científica que encontramos na linha do tempo é Adalzira Bittencourt, que escreveu romance, poesia e não-ficção entre 1919 e 1969. Outra mulher focada nos grandes feitos femininos, foi presidente e membro fundadora da Academia Feminista de Letras no Rio de Janeiro. Sua obra permaneceu desconhecida por muito tempo, tendo sido resgatada apenas na década de 1990 por grupos de estudos feministas. O livro pelo qual é mais famosa é justamente uma ficção científica embora ela própria não classificasse como ficção científica. “Sua excelência: a Presidente da República no Ano 2500” retrata um Brasil governado por uma mulher após o triunfo do feminismo. No entanto, a utopia apresentada pela autora nos faz questionar: utopia pra quem? Nesse futuro, foi criada uma super-raça com ideais eugenistas, a única finalidade do sexo era a procriação, pessoas infectadas com hanseníase eram eliminadas para não prejudicarem a raça superior... Confesso que eu não li o livro, apenas comentários, porque não me interessou ler sobre essas filosofias. O feminismo não é uma blindagem contra críticas, e nos tempos de hoje me reservo o direito de apontar que pessoas ativas por boas causas não estão isentas de falar e fazer merda. Mas, manter o registro das precursoras do gênero inclui conhecer até as de ideias ruins — manter as vergonhas no histórico nos ajuda, ou deveria ajudar, a não repetir erros.
Depois desses dois nomes mais proeminentes, entramos nas ondas (eu amo esse termo). Em “Cosmos Latinos: An anthology of Science Fiction from Latin America and Spain” as críticas Andrea Bell e Yolanda Molina-Gavilán propuseram dividir as épocas da ficção científica latino-americana em ondas. A proposta foi adotada aqui no Brasil, de modo que temos quatro ondas que identificam mais ou menos as levas de organização e produção de autores nacionais no gênero, e não necessariamente indicam quatro gerações diferentes de escritores.
Na Primeira Onda, iniciada em 1957, encontramos como primeiro nome feminino de destaque uma autora muito famosa e que a maioria dos brasileiros nem imagina que escreveu ficção científica: Dinah Silveira de Queiroz. Em 1960 ela publicou um livro de contos chamado “Eles herdarão a terra”, e depois em 1969 publicou outro livro de contos chamado “Comba malina”. Para ler sobre ela e sobre os contos, recomendo (mais uma vez) que deem uma olhada no material extra do Clube de Leitura do Bobagens Imperdíveis.
Ainda na Primeira Onda, vemos nomes de algumas mulheres contribuindo com contos para antologias. Uma delas é Lúcia Benedetti, que é considerada a precursora do teatro infantil (e por acaso é mãe da carnavalesca Rosa Magalhães). Uma outra é ninguém menos que Rachel de Queiroz, simplesmente uma das maiores escritoras brasileiras e a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras. Também temos Lúcia Machado de Almeida, que escreveu diversos livros infantis e alguns deles podiam ser classificados como parte do gênero. Apesar da obra delas não ser totalmente na ficção especulativa, deram sua contribuição para o gênero ao participar de um momento em que a ficção científica ainda estava engatinhando e tentando encontrar solo para fixar raízes no Brasil.
Na Segunda Onda temos as publicações entre 1980 e 1990. Aqui tivemos uma época bastante agitada, com direito a surgimento de muitas zines, um Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, e o nascimento do Clube de Leitores de Ficção Científica (que viria anos mais tarde a organizar e manter o Prêmio Argos). Aqui vemos novos nomes femininos surgirem entre as autorias, participando com contos: Ruth de Biasi, sobre quem até o momento dessa edição eu ainda não tinha ouvido falar; e Finisia Fideli, que eu tenho a honra de poder chamar de colega de agência, na Magh. Finisia estreou em 1983 com o conto “Exercícios do Silêncio”, que hoje é considerado um dos clássicos do gênero no Brasil, e tem histórias publicadas também em Portugal e Estados Unidos; ela também foi uma figura importante ao abordar a presença da mulher na ficção científica, enquanto autora e personagem.
Passando para a Terceira Onda, que vai até o ano de 2014, os autores começam a deixar as zines clássicas para ocupar a internet, através de blogs e revistas eletrônicas. Foi também o período de surgimento do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica, que tem sido um grande fomentador dos diversos gêneros especulativos no Brasil e também um farol de valorização de nossas autorias normalmente esnobadas por premiações mais famosas. Aqui, mais nomes ainda surgem: Cristina Laisatis, Camila Fernandes, Lady Sybylla, Aline Valek, Melissa Tobias... e certamente nomes que eu não descobri, ou que estou confundindo as ondas porque são anos já mais próximos do período atual. O acesso facilitado pelo boom da tecnologia e da internet naturalmente trouxe mais mulheres para o gênero nem que apenas por maior possibilidade de descoberta e interação. Dessa conexão virtual surgiu a coletânea Universo Desconstruído (Volumes 1 e 2), a primeira coletânea de ficção científica feminista do Brasil organizada por Lady Sybylla e Aline Valek, duas autoras muito atuantes no gênero não apenas pela escrita mas também pelo trabalho em blogs e podcasts, de modo que servem também como testemunhas da evolução da ficção científica.
Escrevendo sob pseudônimo, Lady Sybylla (outra que tenho a honra de poder chamar de colega de agência literária) tem uma grande produção de contos e livros desde 2012, e continua ativa. Ela terá um livro publicado pela Editora Aleph ainda esse ano, e estou muito ansiosa por esse. Você pode, além de ler os livros dela, ler também suas resenhas e dicas em seu blog Momentum Saga.
Sobre Aline Valek não vou falar agora, já que a segunda parte da edição de hoje está toda com ela. Entre as honrarias que estou podendo exibir hoje, está a entrevista que ela concedeu para o Filhas de Ursula. Vou apenas comentar que quando eu respirei fundo e decidi tentar publicar minhas histórias, saí correndo atrás de exemplos de autoras brasileiras de ficção especulativa em casas editorias de respeito e o nome dela foi um dos primeiros que eu disse: UAU. Hoje meus livros saem pela mesma editora que os livros dela e acho que não tenho como ficar mais metida do que isso numa edição só.
Finalmente, na Quarta Onda, que é a que estamos surfando agora, fico feliz de dizer que há tantos nomes que eu com certeza vou acabar cometendo injustiças não mencionando todos eles. Nesse período vemos os subgêneros nascendo: afrofuturismo brasileiro, sertãopunk, cyberagreste, amazofuturismo. Também temos o surgimento da editora Dame Blanche, a qual dou destaque por ser uma editora independente fundada e gerenciada por duas mulheres (Anna Martino e Clara Madrigano). A revista eletrônica Mafagafo focada em ficção especulativa, e seu filhote, a Faísca, também surge comandada por duas mulheres que vocês já viram por aqui: Jana Bianchi e Fernanda Castro, duas autoras ativas e expoentes do nosso tempo.
Francélia Pereira, Sandra Menezes, Lu Ain-Zaila, Ursula Antunes, Juliane Vicente, Carol Chiovatto, Carol Façanha, G. G. Diniz, Bárbara Morais, Ana Rusche, Luana Cruz, Melissa de Sá, Mariana Madelinn, Carol Vidal, Kelly Nascimento, Thais Lopes, Marina Dutra, Roberta Spindler, Saskia Sá... e esses são apenas alguns nomes de memória de autoras que (ainda) não passaram pelo Filhas de Ursula. E, importante dizer, apenas de autoras que publicaram ficção científica em algum momento, já que é o foco principal da nossa questão, mas muitas delas escrevem também em outros gêneros literários. Passando para autoras mais decididamente voltadas para fantasia, temos também vários outros nomes gigantes, como Paola Siviero, Giu Domingues, Hache Pueyo, Ana Lúcia Merege, Ana Cristina Rodrigues, Natália Ávila, Ariani Castelo, Fernanda Nia, Mary Muller, Denise Flaibam, Bianca Jung... Digam os nomes delas, principalmente se forem nomes que eu não dei conta de lembrar. (Tem eu, também, antes que uma das minhas amigas venha brigar comigo por eu esquecer de mim.) Eu não costumo habitar livros de Horror e Terror, por isso peço desculpas por não colocar aqui outros tantos nomes, mas se você não sabia, fique sabendo que nossas autoras também fazem muito barulho nesse espaço e volta e meia um dos nomes citado acima coloca um dedinho no território do medo. A ficção especulativa é uma grande encruzilhada, e a maioria de nós vai zigue-zagueando por várias trilhas literárias, desbravando rotas ainda não cartografas e bordando pontos sem receita.
Todas as autoras de ficção especulativa do tempo contemporâneo são Filhas de Ursula, quer elas deem um oi por aqui ou não. Todas são também gigantas para uma próxima geração, seja ainda na Quarta Onda ou numa Quinta ou Sexta, ou sei lá o que o futuro nos reserva.
A vantagem de estar vivendo no presente é que podemos escrever os registros do futuro. Digam os nomes delas e se lembrem dos nomes delas. Quando forem organizar eventos, indicar autores, mencionar em conversas de bar ou debates acadêmicos. Quando forem escolher a próxima leitura.
Com isso, deixo vocês agora com a entrevista de uma ilustre autora da Terceira Onda (eu amo como isso parece até título de filme de ficção científica) que vive e respira o ofício de escritora e que adoro acompanhar para saber o que anda cruzando sua mente. Não é por acaso que o trabalho dela é citado tantas vezes ao longo do Filhas de Ursula!
Entrevista Aline Valek
Aline Valek é escritora, ilustradora, comunicadora e professora. É autora dos romances "As águas-vivas não sabem de si" e "Cidades afundam em dias normais", publicados pela Rocco. Tem inúmeros contos publicados em revistas, livros e coletâneas, como Superinteressante, Dragão Brasil, o independente "Neuroses a Varejo", e a antologia de ficção científica feminista "Irmãs da Revolução", publicada pela Aleph, além de contos traduzidos para inglês e italiano. É apresentadora do podcast narrativo "Bobagens Imperdíveis" e autora da newsletter "Uma Palavra". Atualmente vive na gélida Alemanha, mas também pode ser encontrada em alinevalek.com.br.
1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?
Essa é tão fácil de responder quanto "qual a diferença entre o charme e o funk". Quanto mais eu penso nisso, mais vejo a semelhança entre os dois. Ambos lidam com o maravilhamento, com o estranho. Ambos tratam do mistério, explicado ou não. Ambos brincam com extrapolações. Ambos estão no campo da especulação: "e se o mundo fosse de outro jeito?" ou "o que aconteceria se...?". Ambos nos permitem olhar para a nossa sociedade usando alegorias fantásticas.
A resposta simples é dizer que um se inclina para o tecnológico e o outro para o mágico. Mas nem isso encerra a discussão. O que difere tecnologia e magia? Uma tese que acho bem interessante é do Adam Roberts no livro "A verdadeira história da ficção científica" (tradução de Mário Molina), a de que a ficção científica se origina como resultado de uma cisão de pensamento que ocorre a partir da reforma protestante e do desenvolvimento do método científico, colocando de um lado a ficção científica, que segue a estética racionalista pós-copernicana protestante, e do outro, a fantasia, que segue a estética da teologia católica, mais mágica e mística. Embora eu consiga pensar em exemplos em que essas fronteiras se borram, como "Duna", uma FC com viés messiânico e místico. Mas gosto dessa visão por reconhecer o gênero como mais antigo do que costumamos acreditar que é, além de posicionar sua origem e desenvolvimento em resposta a mudanças culturais, políticas e de mentalidade de uma época. A ficção científica não nasce nem se desenvolve no vácuo, ela está em contínuo diálogo com a nossa realidade e vai se modificando com o tempo.
Por isso, tentar encontrar uma definição definitiva é como tentar desenhar os contornos da sua própria sombra enquanto você se move. Não sou muito fã de traçar linhas no chão. Prefiro deixar essa tarefa para os pesquisadores que se debruçam sobre o estudo da literatura e para o pessoal do mercado, que depende de criar rótulos para saber para qual público vender e em qual prateleira posicionar aquele produto. Como leitora e escritora, estou mais interessada no que rompe as fronteiras. E ir além do que foi traçado como um limite é justamente aquilo que me atrai na literatura especulativa.
2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?
Acho que é uma armadilha para qualquer autor tentar se definir. Porque não importa o que você diz sobre o que escreve, mas como o público lê e recebe o que você escreve. Apesar de ter partido de uma premissa insólita, "Cidades afundam" acabou se revelando para mim como um romance bem realista, especialmente naquilo que a narrativa não deixa explicado. Porque a realidade muitas vezes é assim, inexplicável. Então é a mais realista das histórias que escrevi até agora. Adianta dizer isso? Não adianta. Porque por algum motivo eu não sou lida como romancista de literatura realista, a literatura "séria". No final, são os outros que vão me definir. O que é bem parecido com a experiência de ser mulher, né? Você precisa caber dentro de um contorno que constroem para você. Se você tenta transgredir, sair um passo para fora desse molde, aparece alguém para te podar e te colocar de volta no seu lugar. Por outro lado, você ganha pontos extras ao se adequar à imagem que esperam de você. Todo gênero é uma forma de prisão.
Meu pacto não é com um ou outro gênero, e sim com os personagens e suas histórias. E elas surgem para mim em diferentes estilos, cores, formatos, sabores. Um dos projetos em que estou trabalhando agora (e devo contar em breve na minha newsletter) está mais voltado para o realismo mágico, ou talvez fantasia? Nunca dá para saber enquanto estou escrevendo. Mas a questão é que não é porque eu escrevi um romance de ficção científica que é tudo o que tenho para oferecer. Aliás, muita gente sequer considera "As águas-vivas..." ficção científica! Eis o maior dilema da minha carreira, Lis. A dificuldade de me enquadrarem em um gênero e a minha recusa em me reduzir, como artista, para caber. Isso tem um custo. Mas gosto dessa opção que você colocou na sua pergunta: meu gênero é o meio do caminho. Porque estou sempre numa travessia, indo para algum lugar. Para onde? Tem que topar vir comigo para descobrir.
3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?
Na literatura, "Contato", do Carl Sagan, está entre meus livros favoritos da vida. Me marcou muito um livro que, falando de matemática (!!), me fez chorar como uma desgraçada. Já a série "O Guia do Mochileiro das Galáxias", do Douglas Adams, me conquistou justamente por mostrar que a ficção científica tem espaço para o humor.
Também me marcou "A Curva do Sonho", o livro que mais gosto da mamis Ursula K. Le Guin. "O conto da aia", de Margaret Atwood. "Duna" de Frank Herbert. "A invenção de Morel", de Adolfo Bioy Casares, é genial. Apesar de ser uma leitura recente, gostei bastante dos contos de ficção científica da Dinah Silveira de Queiroz, dos livros "Eles herdarão a Terra" e "Comba Malina", que lemos no meu Clube de Leitura Bobagens Imperdíveis. Ler em conjunto ajuda a olhar com mais profundidade para as histórias.
No audiovisual, tenho algumas favoritas que envolvem viagem no tempo, como a série "Dark" e o filme "Donnie Darko". Gosto da série "Twilight Zone" ("Além da Imaginação"), especialmente as temporadas mais antigas, por trazer histórias curtas com especulações bem interessantes. Recentemente assisti uma série sci-fi que gostei muito, especialmente por focar nas relações entre os personagens de uma cidadezinha onde coisas estranhas acontecem (mais ou menos como em "Dark"), se chama "Tales from the Loop". Pois é, eu tenho uma fixação com histórias que envolvem voltar no tempo. Mas, no fundo, são sempre os personagens que fazem uma história ficar marcada para mim.
4) Você tem uma produção ampla e diversa, e o insólito é algo muito presente nas suas histórias e também nos assuntos que você comenta. Em “As Águas-vivas não sabem de si” você traz uma ficção científica cujas respostas estão sempre no limiar da página, ou na percepção de uma criatura marinha. Você planejou que fosse dessa forma, ou a mistura orgânica de ciência com o insólito veio naturalmente como fruto dos seus interesses?
Se essa história tivesse saído como planejado, ela seria um bicho bem diferente. Inicialmente, eu tinha pensado em conduzir todo o arco da Corina mais como uma história investigativa sobre um acidente fatal numa expedição no fundo do mar, inclusive com um desfecho bem diferente do que acabou sendo. Mas, a partir do momento em que defini quem estava contando essa história, a coisa saiu do meu controle e mudou de direção. Os personagens começaram a se rebelar contra o plano que eu tinha traçado para eles e decidi apenas ser a observadora que anota como eles escolhem agir.
Parece que só consigo engrenar nas histórias quando me permito ser possuída por essa entidade que se impõe porque precisa encontrar a forma certa de vir ao mundo. A partir da escolha do narrador, a história fluiu, encontrou seu ritmo. Tem um papel do inconsciente aí, de permitir que elementos que estavam lá no fundo da minha mente pudessem vir à tona. E foi essa pulsão narrativa que me autorizou a dar uma pirada e trazer a perspectiva da fauna marinha e até mesmo inventar criaturas. Por mais que eu tenha partido de pesquisas científicas e do que me fascina no oceano, chegou um momento durante o processo em que pude tirar os pés do chão e desapegar do compromisso com a realidade. Eu sempre termino uma história encontrando algo bem diferente do que fui buscar, que é mais ou menos o que acontece com o personagem oceanólogo desse livro, o Martin.
5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?
Se por ficção científica considerarmos uma história ambientada no futuro, então estou trabalhando em uma atualmente. A exploração de recursos naturais e a memória são algumas das questões que aparecem nessa história, mas acho que o tema mais influenciado pelo meu entorno é o de choques culturais decorrentes da interação entre povos diferentes. A questão de ser um estrangeiro já aparece nos meus romances anteriores, porque essa sensação de deslocamento é algo muito presente em toda minha jornada, mas estar vivendo como imigrante, imersa em um lugar onde não domino a língua e onde não sou entendida, sobretudo em um contexto global de xenofobia e de intolerância contra imigrantes, faz essa questão ficar muito mais marcada para mim.
6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?
A literatura, de forma geral, é um espaço de poder e, portanto, imensamente mais receptiva a quem detém privilégios na sociedade. Quem é que pode se manter escrevendo, publicando, dispondo de tempo, contatos e recursos materiais para desenvolver um projeto literário? Não apenas homens, mas predominantemente pessoas brancas e pertencentes a classes mais altas, especialmente no Brasil, onde a precariedade do mercado literário por si só atua como uma "seleção natural" que vai podando do caminho aqueles que dependem do trabalho para sobreviver.
Não percebo que é problema de um ou outro gênero. Pelo contrário. Vejo o cenário da ficção científica como um campo mais diverso e muito menos elitista do que na literatura realista. Talvez porque a ficção científica seja um gênero considerado menor, menos sério. Não é visto, especialmente dentro do meio literário, como "alta literatura". A ficção científica é vista como um gueto, é um gênero marginalizado. Talvez por isso acaba sendo a mais receptiva para os esquisitos, os "outsiders", para as minorias empurradas para as margens, porque ela consiste justamente no impulso de imaginar outras possibilidades de mundo, da insatisfação com a realidade. Desde sempre tivemos mulheres escrevendo no gênero e tenho visto cada vez mais como um espaço para vozes dissonantes, para autores não-brancos, queer, trans, vindos da periferia. Mas, como disse acima: quem é que tem mais chances de se manter escrevendo, desenvolvendo um projeto literário, sendo bem relacionado no mercado para alcançar certa visibilidade?
7) Dentre tantas formas de contar histórias e assuntos para tratar dentro delas, você acredita que a ficção científica tem certa obrigação quanto a certos assuntos? Ou, encarando de outra forma, acha que têm histórias que são melhor contadas através da ficção científica?
Obrigação alguma. A ficção científica não tem qualquer obrigação de atender determinadas fórmulas, ou de ser cientificamente correta, ou de orbitar necessariamente ao redor da tecnologia, ou de oferecer explicações, ou de prever o futuro, ou, se a história se propõe a imaginar um futuro possível, ela não tem a menor obrigação de acertar. Tem a obrigação de contar boas histórias, como toda boa literatura.
8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?
Fazendo um exercício de voltar às minhas memórias mais antigas, minha relação com a ficção especulativa não começou com os livros, mas com a música. Meu pai colocava os vinis do Raul Seixas para tocar e eu ficava fascinada com as histórias que as músicas contavam, de discos voadores, de entidades que transcendiam o tempo, de gente que via o futuro. Eu era obcecada com a música da mosca. Foi a primeira vez que eu entendi que um narrador podia ser literalmente qualquer coisa, até mesmo um inseto. Vai ver foi essa a origem da inspiração que me levou, ainda que de forma inconsciente, a escolher a voz narrativa de "As águas-vivas não sabem de si".
Também fui uma criança que lia muitos quadrinhos de super-heróis e que sonhava seguir a profissão de quadrinista quando crescesse. Eu adorava tokusatsus, como Jaspion, Cybercops, Changeman, toda série japonesa de monstros e robôs gigantes que passava na Manchete, assim como animes como YuYu Hakusho, Dragon Ball, Sailor Moon. Na literatura, o que me levou a ser uma leitora de ficção científica foi meu contato com "O Guia do Mochileiro das Galáxias", do qual me tornei fã. Até tenho tatuado um trecho do livro na perna.
Mas para além das referências fantásticas que abundavam nos anos 90, acho que o que me atraía para esse tipo de história era uma sensação persistente de deslocamento, do meu estranhamento diante do comportamento das outras pessoas, que me fazia sempre sentir inadequada, de que sempre me faltava um pedaço de informação para entender por completo o que estava acontecendo. Por um tempo acreditei que as duas últimas letras do meu nome estavam invertidas, para disfarçar a minha real natureza, a de que não sou daqui. Que estou aqui com uma missão, de observar e relatar tudo, porque a qualquer momento vão vir me buscar e me levar de volta para o meu planeta. Acho que essas histórias eram um refúgio, me fizeram entender que o mundo é mesmo uma doideira meio mágica. A realidade não faz mesmo sentido, tem muito de inexplicável.
9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?
O público leitor, de forma geral, não apenas o feminino, tem uma resistência e um preconceito enorme contra a ficção científica. Se você diz que escreve ficção científica, você vê a cara da pessoa mudar, só falta ela sair correndo. Suspeito que a palavra "ciência" ali no meio assuste as pessoas. Parece existir a percepção (equivocada) de que vai ser necessariamente uma história cabeçuda e que você precisa ter formação em Física e um ou dois doutorados para conseguir sacar. Isso vem de um entendimento bem restrito do que é o gênero, que se resumiria à FC hard. Eis o problema dos rótulos.
Acho que parte dessa resistência se deve ao fato de que, hoje, em que literalmente vivemos no cenário distópico que muitas obras de FC descreveram tempos atrás, as pessoas se afastem porque estejam em negação. Muita gente segue acreditando que ficção científica nada tem a ver com a vida delas, que é algo muito distante da realidade, coisa de outro planeta. Por isso me propus, na temporada atual do meu podcast Bobagens Imperdíveis, a esmiuçar narrativas de ficção científica e mostrar como isso se relaciona com o presente, com a vida cotidiana. Em pleno ano da graça de 2026, insisto que não tem literatura mais contemporânea que a ficção científica. E acho que se voltar a essas narrativas (especulativas e fantásticas, de forma geral), é crucial em um momento histórico em que vivemos no desalento da escassez de futuro, numa grave crise de imaginação.
10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?
Star Wars é filme de princesa da Disney.
Câmbio, desligo.
Na próxima edição comento um tópico que me fascina dentro da ficção científica porque a essa altura do projeto me dou esse direito. Nas entrevistas, embicamos a nave mais uma vez para a Região Norte do país.
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