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Filhas de Ursula #6
encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Nas encruzilhadas de hoje...
Relembramos acidentes misteriosos e pensamos sobre o tipo de futuro que imaginamos para o Brasil. Em seguida, vem a entrevista da autora Anna Martino.
Do Brasil para o espaço, e além
Eu carrego uma outra pergunta paralela a “a ficção científica é um espaço majoritariamente masculino?” e desde o começo fiquei pensando em como incluir o assunto, sem desviar demais da questão das mulheres e sem também deixar de levar esse outro viés em consideração.
Teria o povo brasileiro algum tipo de preconceito com a ficção científica nacional? Ou talvez uma reformulação melhor seja: seria a síndrome de vira-lata do brasileiro um fator impeditivo para que aprecie a ficção científica nacional? Essa pergunta poderia incluir todos os gêneros literários de entretenimento, na verdade, um eco daquela coisa velha que ouvimos oscar sim oscar também: “brasileiro só sabe fazer filme de humor ou de favela”. Mas, não vou enveredar pelo audiovisual aqui, precisamos manter o foco.
Então vamos voltar ao ano de 1999, ano de lançamento do SACI-1 e do SACI-2.
Os SACIs (Satélites de Aplicações Científicas) foram microssatélites brasileiros projetados, desenvolvidos e construídos pelo INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O 1 foi lançado em outubro a partir de uma base chinesa num acordo sino-brasileiro; ele chegou ao espaço, alcançou a órbita pretendida, mas não entrou em operação. Acredita-se que tenha ocorrido um defeito no sistema de controle da placa solar. O 2 tem uma história um pouquinho mais dramática.
Dia 11 de dezembro de 1999 um VLS (Veículo Lançador de Satélites) (estamos cheias de siglas hoje, hein?) decolou do Centro Espacial de Alcântara, que é o nosso próprio espaçoporto comandado pela Agência Espacial Brasileira (sim, temos uma!) e localizado no município de Alcântara, no estado do Maranhão. O VLS decolou levando o SACI-2, que por sua vez carregava quatro instrumentos científicos. Infelizmente, apenas 200 segundos depois da decolagem, houve uma falha no segundo estágio de lançamento e o foguete precisou ser destruído por um comando de rádio. Perdemos o SACI-2 e sua missão científica. Mas, o drama de verdade veio alguns anos depois.
O VLS em questão era denominado VLS-1 V02, e foi um de quatro foguetes brasileiros construídos entre 1997 e 2003. Em 22 de agosto de 2003, o VLS-1 V03 pegou fogo antes mesmo da data programada para decolagem. Através do circuito fechado câmeras de vídeo da torre, foi possível identificar que uma ignição não planejada do motor de primeiro estágio do VLS destruiu o foguete ainda na plataforma com uma sequência de explosões e matou 21 pessoas que estavam trabalhando no local, preparando o veículo para lançamento da missão. Foram 8 segundos para que toda a torre fosse envolta por fumaça, e cinco minutos até que caísse. Por uma infeliz coincidência, praticamente ao mesmo tempo acontecia uma coletiva de imprensa com o então presidente da Agência Espacial Brasileira, de modo que quando foi surpreendido por uma pergunta referente ao acidente ele respondeu com “Só se for um foguete de São João”, antes de receber a confirmação do ocorrido.
O acidente de Alcântara atrasou consideravelmente os avanços do programa espacial brasileiro, mas não o impediu. Através de diversas parcerias internacionais, o Brasil conseguiu colocar satélites no espaço, e até mesmo mandou em 2006 o primeiro astronauta brasileito e lusófono (que anos mais tarde se tornaria um ministro de governo). Eu poderia continuar desfiando fatos históricos e curiosidades legais aqui (vocês sabiam, por exemplo, que um dos espaço-portos brasileiros se chama Barreira do Inferno?), como o fato de ter havido suspeitas de interferência de espionagem francesa no incêndio do VLS. Mas a verdade é que contei tudo isso para dar contexto a uma pequena anedota, que diz mais sobre a relação do brasileiro médio com a noção do nosso mérito científico do que sobre os acidentes dos nossos foguetes.
Esse período entre 2003 e 2006 o assunto do programa espacial brasileiro ficou em “alta”, volta e meia pipocavam notícias sobre assunto, tanto por conta da investigação do acidente quanto pelo êxito de colocar um brasileiro em órbita. Foi nessa época que numa conversa sobre o tema eu ouvi uma pessoa comentando sobre como a coisa toda estava fadada a dar errado porque “um foguete chamado saci jamais daria certo.”
“Veja os americanos. As sondas Discovery, Explorer, Challenger… e o nosso chama Saci.” Foi outra fala ouvida nessa conversa, demonstrando tanto desconhecimento que SACI era o satélite e não o foguete quanto aquele humor autodepreciativo que o brasileiro é tão bom.
Na época eu era uma adolescente boba e ri com o resto das pessoas, mas sentindo aquela pontada de algo não estava certo. Precisei de anos de maturidade e a minha própria experiência acadêmica pra entender o tanto de preconceito carregado nas piadocas bobas daquele grupo de jovens brasileiros. Desprezo tanto pela nossa fantasia quanto pela nossa ciência é bem mais comum do que a maioria das pessoas está pronta para reconhecer. Não faz muito tempo as pessoas estavam tentando escolher as vacinas da Pffiiiizeeeerrr e da Jansen ao invés da vacina do Butantã mesmo durante a catástrofe do combate a covid em território nacional.
No dia em que comecei a escrever esse texto houve uma pequena conversa no grupo de mensagens do Clube de Leitura Bobagens Imperdíveis sobre como o Brasil é muitas vezes retratado como o país do futuro nos futuros imaginados de muitas ficções científicas. Alguns exemplos: Brasyl, de Ian Macdonald; Orador dos Mortos, de Scott Card; Nova de Samuel Delany.
Eu cresci ouvindo isso na escola: o Brasil é o país do futuro! Uma fala que quando eu era criança e adolescente parecia muito abstrata, nós parecíamos muito longe do futuro dos Jetsons, principalmente quando o noticiário trazia foguetes explodindo antes de decolar. Mesmo hoje, ainda preciso pensar com cuidado o que imagino quando penso nesse país do futuro. Primeiro para não pensar cenários terríveis demais, não me deixar tomar pelo pessimismo sobre os datacenters sugando a nossa água, ou sobre a exploração de petróleo na foz do Amazonas nos amarrando a fontes de energias não-renováveis, ou sobre a disputa ideológica aos poucos roendo o tecido de civilidade da colcha de retalhos da nossa sociedade. E depois para fazer o exercício de ponderar tudo que já mudou no meu tempo de vida já transcorrido e o que parece factível supor no tempo que ainda tenho. Mesmo considerando que provavelmente vou atingir a média de expectativa de vida da brasileira média, ainda não nos enxergo no cenário dos Jetsons — mas consigo imaginar que a nossa combinação única de território e cultura nos posiciona para sermos (mais) relevantes mundialmente.
Incluindo a piora das mudanças climáticas, ainda temos aí uma geografia diversa o bastante para tentar manter uma agricultura variada e com o vasto território vem também um vasto litoral. Resiliência, gambiarra, senso de oportunidade, alegria diante da catástrofe, apego ao improvável... são características propícias para a sobrevivência num cenário pessimista e para prosperidade num cenário otimista. Vaso ruim não quebra e praticamente qualquer coisa nas mãos brasileiras pode virar vaso.
Acho que a grande dificuldade do brasileiro médio de acreditar nas tecnologias nacionais está justamente nesse desencontro entre a estética estrangeira que nos é imposta na realidade e na ficção e a nossa própria estética caseira. As formas, cores, cheiros e texturas dos futuros fictícios do ocidente costumam ser muito uniformes, muito cinza metálico, muito jeito sério. Isso não combina com a gente, e falo no melhor dos sentidos. De que adianta ser o país do futuro se deixarmos de ser também o Brasil? Multietnico, multifacetado, rendado, tricotado, rebolado, gingado? Por que, afinal de contas, o futuro precisa abrir mão das coisas boas do presente e do passado? Por que o futuro não pode ser rural? Tecnologia e natureza só parecem opostos hoje nas mãos de quem conduz uma contra outra.
De fato, duas únicas coisas podem impedir o Brasil do futuro tão sonhado por diferentes gerações. Uma situação global verdadeiramente insustentável, e nós mesmos. Uma sociedade pendendo ao pensamento retrógrado dificilmente vai ser a anfitriã do futuro, e é aí que topamos de novo com o assunto principal do Filhas de Úrsula, eu acho. Os desafios a serem superados para garantir uma presença cada vez maior das mulheres na ciência e na ficção científica são os mesmos para manter o país no rumo certo. Pode parecer exagero, mas só parece exagero se você fingir que não existem movimentos abertamente contra a independência e os direitos femininos. Me recuso a citar os números de feminicídio aqui, me recuso a desfiar os Epstein files e outras desgraças, mas deveria ser óbvio que tudo isso nos aproxima mais do terreno das distopias do que das histórias otimistas.
Acredito que ser capaz de imaginar esse Brasil do futuro em que a sociedade não é um mar cinza e sem graça passa diretamente por abraçar a diversidade em todos os sentidos: de gênero, de etnia, de natureza, de cultura. Qual é o lugar da mulher na nossa sociedade pelas próximas décadas? E também, quais histórias as mulheres de hoje carregarão para o futuro? O que do nosso passado estão tão preservado que vai resistir não apenas ao teste do tempo mas também as constantes disputas sociais?
Um exemplo que talvez soe bobo para quem não tem esse hobby mas que já me assombra os pensamentos: hoje em dia as Alexas em residências brasileiras estão apoiadas sobre os benditos paninhos de crochê, como faziam nossas avós com praticamente tudo. Isso é um pouco engraçado hoje, mas também é uma interrogação para o futuro. A fonte das fibras para as linhas, a forma de tingimento, o material para agulhas, a técnica utilizada... nada disso é garantido. Recentemente vi um artigo comentando como a inteligência artificial está até mesmo interferindo nas receitas de crochê; padrões de bichinhos, bolsas e roupas gerados por IA estão aos poucos inundando a internet. Padrões que são até bonitos, mas completamente incompatíveis com as técnicas de crochê, frustrando profissionais e amadores.
As histórias de tantas das autoras que trago aqui são carregadas de suas referências unicamente brasileiras, os futuros que imaginam na ficção podem até ter uma boa dose de desgraça mas também de terra e memória e passado e magia. Esse sabor de ficção científica nacional pode tomar muitas formas, trazer muitos orgulhos brasileiros e muitos brasis (inclusive os de autoria masculina, aliás), pode nos colocar no espaço sideral e nos imaginar levando bolo de fubá para mundos distantes. Pode também colocar os paninhos de tricô no centro de tramas de complexas como as das espiãs das grandes guerras, por que não? A ideia de que isso é menos interessante ou menos visionário do que naves de nome em inglês vem do mesmíssimo lugar de ficar com medo da vacina do Butantã ou de olhar torto para a presença de saberes tradicionais nas universidades ou... vocês entenderam.
No dia que finalizo esse texto uma pessoa decolou sobre um drone na Sapucaí durante o desfile das escolas de samba. A tecnologia por uma ciência cada vez melhor e mais consciente, mas também a tecnologia pela arte, pela exaltação da cultura, pela alegria. Acho esse um futuro muito digno, estou torcendo por ele. Talvez seja um ato muito inovador imaginar futuros com otimismo.
Com essa reflexão de hoje eu não podia trazer outra entrevista que não a dessa autora, que até onde me cabe considero a fundadora e proprietária do subgênero “ficção científica rural”. Ela, com quem compartilho: muitos gostos em comum, patinhos desalinhados, e uma bruxa chamada Tia Godétia que está apenas esperando a conjunção astrológica adequada para ser escrita a quatro mãos. (Vocês já devem ter percebido que sou extremamente parcial em relação às minhas amigas, e não tenho vergonha nenhuma de admitir isso. Recomendo que você faça o mesmo com seus amigos.)
Entrevista Anna Martino

Anna Martino nasceu em São Paulo em 1981. Suas histórias já foram interpretadas na Radio BBC World e publicadas em revistas e coletâneas em inglês e português, com destaque para Prosérpina (Madame Houdini, 2025), Fortunato Poeira (Cachalote, 2024) e Senhor tempo bom (Plutão, 2020). Também é uma das fundadoras da Editora Dame Blanche, especializada em ficção especulativa. Nas horas vagas, tricota e costura roupas com pegada vintage e sofre com campeonatos de futebol e tênis.
1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, enquanto pessoa que escreve, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?
A maneira de encarar o desconhecido. Como escrevi em um conto certa feita, “ciência é magia com explicação plausível.” A Ficção Científica parte do ponto de vista daquilo que é plausível e mensurável; a Fantasia cobre todo o resto - ou seja, o inexplicável e imponderável, o medo da morte, o porquê do amor, e por aí vai.
2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?
Estou bem acomodada entre os dois mundos. Gosto muito de imaginar o mundo a partir da tecnologia presente (já transformei vagões de metrô em máquinas do tempo e máquinas de costura em equipamentos para falar com os mortos, por exemplo), mas preciso da magia para compreender e aceitar as partes de mim, e do mundo, que não fazem sentido cientificamente. Eu me aproximo do gênero que a história pede – tem coisas que só conseguem ser vistas pelo prisma da Fantasia, e outras pelo prisma da Ficção Científica… e às vezes por uma mistura dos dois, por que não?
3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?
Meu livro de FC para levar à ilha deserta é “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Jules Verne. Para sempre meu primeiro e mais sincero amor nessa área.
4) O que do seu entorno ou da sua história influenciou a escrita dos seus contos de sci-fi e também de Fortunato Poeira?
“Fortunato Poeira” veio à mente pela primeira vez em uma viagem de carro entre Joinville (SC) e Curitiba (PR), acompanhando meu marido em um evento acadêmico. A estrada é marcada por trecheiros – pessoas que andam entre cidades (o "trecho” em questão) procurando trabalho temporário. Como seria um trecheiro no espaço? A partir daí comecei a elaborar o texto. A colônia espacial agrícola Bertha Lutz, cenário do “Fortunato” e outros contos, é inspirada na terra natal do meu pai, Cordeirópolis (SP) – 25 mil habitantes de acordo com o Censo mais recente – e também em Atibaia (SP), onde moram parentes meus. Se vai existir um futuro no espaço, e se os brasileiros farão parte deste futuro, como seria essa nova terra? Por que sempre imaginamos o futuro como sendo branco, cromado e sem sal? Daí segue todo o arcabouço do livro.
5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?
É preciso pensar, primeiro, na pessoa que sou agora. E eu sou o sonho realizado dos meus antepassados: tenho um teto todo meu, fiz faculdade e tenho meu próprio dinheiro; meu filho não precisa abandonar a escola para ajudar no sustento da família; sei falar mais de um idioma, não precisei de autorização de pai ou marido para abrir conta no banco e posso votar para presidente, governador e prefeito (a primeira vez que minha mãe votou para presidente, ela tinha quase quarenta anos, pós-Ditadura. Eu votei pela primeira vez para presidente aos dezessete!)
Se fosse escrever um novo livro de FC hoje, é a partir desse ponto que começo: sou brasileira, nascida em um mundo pré-internet e pós-satélite, e meus pais foram os primeiros em suas respectivas famílias a terem diploma do ensino superior (meu pai foi o primeiro da família dele a completar o equivalente do Ensino Fundamental II.) Não nasci em uma democracia, mas cresci em uma – as cicatrizes desse fato ainda estão bem frescas. Esses são os filtros pelos quais passa o mundo para dentro de mim.
A minha posição no mundo é estar entre as fronteiras: a educação me colocou em locais altos, mas eu não tive o privilégio de esquecer o quanto isso custou. E meus pais, tendo sobrevivido aos anos de repressão, não me deixam esquecer que meus direitos precisam ser cultivados, do contrário somem.
Além disso, há de se sublinhar o fato de que sou uma pessoa fundamentalmente urbana (nascida e criada na zona leste de São Paulo, entre a industrialização, o abandono e a atual gentrificação), mas de família com raízes 100% caipiras. Então, o choque entre tecnologia e sabedoria “da roça” é uma constante na minha vida. Como a gente pode abarcar essa dicotomia dentro da estrutura da Ficção Científica – sem transformar a parte rural em algo exótico ou antiquado ou o inimigo a ser derrotado em nome do progresso científico? Dentro desse universo há muito para ser explorado.
6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você se sente uma espécie de invasora num espaço literário majoritariamente masculino ou nunca teve a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens?
A resposta talvez soe estranha, mas nunca me senti uma espécie invasora no gênero – porque toda a ficção é mais receptiva aos autores homens, não só a Ficção Científica. A ideia de humano universal é masculina, branca, heterossexual e cisgênera, tudo o que difere disso, ainda que seja só um item da lista, é “o outro". E o outro é sempre exótico.
É o que dizem do romance: quando um homem fala de amor, a experiência dele é considerada a experiência coletiva – mas quando uma mulher fala de amor, ela é frívola e tola (e se fala de sexo, então, já viu a encrenca). A mesma coisa acontecia (acontece ainda) na FC: se um homem fala de guerra no espaço, ninguém estranha. Se uma mulher escrever sobre guerra no espaço, já querem procurar qual o trauma que ela sofreu para se enfiar num troço desses. Somos delicadas e gentis! Maternais! Não somos capazes de crueldade! (aviso à praça: contém ironia.)
(E a propósito, o exemplo não é teórico: a saga de FC sobre guerras mais pesada que já li, e uma das mais interessantes também, foi escrita por uma mulher: Lois McMaster Bujold. Aos que falam inglês, procurem por Shards of War para começar a série.)
Então, o que acontece é que, para muitos, não importa o que escreva, eu pertenço a uma classe “menor” porque sou Anna e não Rafael. Por isso, já estava preparada para ser a espécie invasora no clubinho da Ficção Científica… infelizmente.
7) Agora por outro ângulo, você tem publicações em inglês e português. Acha que existe uma diferença de recepção das suas histórias de ficção científica aqui e lá fora? E de fantasia?
Minhas histórias de Ficção Científica tem uma recepção muito melhor no exterior. Não sei se é o público específico ou o momento do mercado anglofônico, que me permite explorar melhor a fronteira entre os gêneros e a mistura de métodos narrativos – só sei que aconteceu mais de uma vez de ter histórias rejeitadas no mercado nacional e publicadas depois com sucesso em inglês, com direito a menções nas listas de melhores textos do ano da imprensa especializada (“Locus” e “Reactor Mag”, por exemplo.)
Já a Fantasia tem uma reação meio-a-meio, e aí entra a questão mercadológica de novo: o público gringo vê que sou brasileira, e automaticamente espera uma história de realismo mágico… e nem sempre o que escrevo se encaixa nessa classificação. É do jogo. Sigo escrevendo e forçando o público anglofônico a aprender a pronúncia brasileira das palavras. É um privilégio e um desafio poder me expressar em mais de um idioma, e pretendo cultivar isso enquanto tiver capacidades cognitivas para tanto.
8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?
Sim! Meus pais são leitores, e isso fez toda a diferença na minha vida. E também cresci em um ambiente favorável à FC. Meu pai ama ficção científica com robôs, conquista no espaço etc –um dos filmes favoritos dele é Blade Runner, e cresci assistindo Star Trek do lado dele (ele gosta do capitão Kirk, eu gosto do capitão Picard, e nós dois concordamos que a Uhura é a única com mais de dois neurônios funcionais na ponte de comando.)
(Minha mãe é fã de Jane Austen e “Cinema Paradiso”, o que explica talvez o outro lado da minha personalidade, o ascendente em Romance e Drama.)
Além disso, ter o privilégio de ter crescido em ambientes acadêmicos (minha mãe foi professora e coordenadora no Ensino Superior por trinta anos, meu pai se aposentou como Professor Emérito em Medicina) me abriu as portas para ordenar meu raciocínio de maneira científica: tema, problema, hipótese, tese e argumentos. Não planejo 100% o que escrevo, mas quando planejo, é com isso em mente.
9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?
O principal fator, para mim, é a criação das fronteiras artificiais de gêneros literários – e isso começa logo na infância: aos meninos, os livros de ação e aventura, às meninas as histórias fofas com princesas.
Depois, a separação aumenta: os rapazes são teoricamente melhores em Matemática, as moças entendem de Ciências Humanas. Quando chega na hora do vestibular, esse fosso vira um cânion e a gente acha normal – porque crescemos com ele, somos incapazes de notar (aquela história do peixe que não sabe que está na água porque não tem termo de comparação). Mesmo hoje, em 2025, um homem que faça Serviço Social é considerado "fraco”, e uma mulher no curso de Engenharia da Computação ouve toda sorte de ofensa e abuso por conta de seu gênero.
Temos aí, portanto, um cenário que condiciona as leitoras a acharem que Ficção Científica não é para elas. Assim como futebol, Fórmula Um, programação de computadores não são para mulheres, teoricamente. Se você gosta de uma dessas coisas, ou você é exótica (leia como quiser) ou você só está nessa “para ver homem bonito” (e na condição de corinthiana desde o berço e cabeça-de-gasolina desde mil-novecentos e bigodão do Nigel Mansell, eu fico profundamente ofendida quando me falam isso.)
Mas veja que isso se espalha sem a gente perceber: quantas arquitetas você é capaz de mencionar de cabeça? Engenheiras da Computação? Quantas mulheres estão nos cargos de comando nas Forças Armadas? Quantas mulheres estão nos cargos de comando da Agência Espacial Brasileira? (Note que a configuração atual da AEB data de 1994 e até hoje só foi presidida por homens.)
Como raios vamos achar que a Ficção Científica pode ser atrativa para as leitoras se somos condicionadas desde a alfabetização a acreditar que “astronauta” é só substantivo masculino? Se os clássicos do gênero que são sempre recomendados nos colocam como problema para o personagem principal, ou só no papel de esposa?...
E não adianta lembrar os rapazes de que o gênero só existe porque existiu Mary Shelley (e antes dela Margaret Cavendish), e que as mulheres são a maioria do público leitor nacional: o ranço permanece. Nesse sentido, escrever sci-fi e ser mulher é uma luta política constante. Porque o gênero é atrativo para qualquer pessoa que tenha desejo de imaginar o futuro, não importa sua sexualidade ou raça ou posição social. O futuro pertence a toda a humanidade.
10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?
É space opera, ou seja: um pouco das duas coisas. Tendo a ver mais como Fantasia por causa da narrativa da Força como um elemento místico (apesar de ser algo que pode ser aferido cientificamente na trama!) A tecnologia e o espaço são só planos de fundo para a trama: o conflito familiar dos Skywalkers. E quem discorda que discorde no conforto de seu lar.
Eu falei dos livros?
Como tenho repetido toda santa edição desde que anunciamos, dia 08/03 teremos Filhas de Ursula ao vivo! Uma mesa-redonda reunindo as escritoras Wlange Keindé, Carol Façanha, Jana Bianchi, Luana Cruz, Lis Welch e uma tal de Lis Vilas Boas (duas Lis no mesmo espaço-tempo, incrível, não?) vai discutir os assuntos circulando as entrevistas e os textos do projeto. Você pode nos assistir presencialmente no Rio de Janeiro, no espaço da Acaso Cultural, em Botafogo. Ooooouu, pode assistir a transmissão em live através do canal de YouTube dos nossos parceiros do Fantástico Guia.
Mas além disso, eu falei que vamos sortear livros para quem for nos assistir? POIS É! Vou deixar para anunciar quais livros mais perto do evento, mas veja que evento BOM. De graça e você ainda pode sair de lá com livros novos. Por favor, coloque esse dia no seu calendário.
Câmbio, desligo.
Na próxima edição venho com algumas autoras de ficção científica brasileira de décadas passadas pois todas nós escrevemos nos ombros de gigantas. Também entrevisto uma autora IMPERDÍVEL.
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