Filhas de Ursula #5

encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Nas encruzilhadas de hoje...

Pensamos sobre a diversidade das mulheres que escrevem fantasia e ficção científica, e conversamos com a autora Kinaya Black.

Lugares

Na semana passada o zeitgeist entrou em ação de novo e me deparei com o anúncio da FLIF. O Festival Literário de Fantasia terá sua segunda edição esse ano e acabaram de revelar que a autora homenageada do evento será a americana Octavia E. Butler. Acredito que esse seja mais um caso de alguém que dispensa apresentações, mas caso você não a conheça ela foi uma das maiores escritoras de ficção especulativa do nosso tempo. Achei muito auspicioso e relevante que o evento tenha escolhido homenagear uma mulher negra no atual momento, do mundo e também do Filhas de Ursula.

Toda vez que eu digito “mulheres” ou “escritoras” na newsletter eu faço pensando na diversidade de autoras que convivo, leio e procuro conhecer. Mas se, enquanto categoria generalista, as mulheres ainda enfrentam desafios em certos nichos literários, é preciso também apontar o quanto a diversidade de mulheres encontra ainda mais barreiras para ser percebida.

As autoras de ficção especulativa são exatamente iguais a todas as mulheres: diferentes. Autoras brancas podem ser mais famosas, ou talvez mais lembradas, por conta de todas as estruturas historicamente racistas da nossa sociedade, mas não são as únicas a terem contribuído para o gênero e a terem alcançado a excelência dentro dele.

Nas edições passadas comentei como era poderoso encontrar histórias em que é possível se ver nas personagens, e isso vai muito além do sexo. Etnia, cultura, vivência, identidade, afetividade. Todas essas coisas influenciam como lemos e como interpretamos, e também como a ficção se encaixa na nossa realidade. As histórias podem servir a muitos propósitos (inclusive o de não ter utilidade alguma), podem nos colocar para refletir e engolir pílulas amargas sobre a humanidade, podem nos inspirar e dar forças e nos lembrar que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo. Ler é tanto uma busca por identificação quanto um exercício de alteridade, abrem-se portas para conseguirmos nos imaginar exatamente como somos em outras vidas e também para sermos capazes de começar a compreender como vivem as pessoas diferentes de nós.

Enquanto leitoras as mulheres, em geral, são muito proficientes em alteridade. Representando a maior porcentagem de leitores de todos os gêneros, as mulheres leem obras escritas por homens com protagonistas masculinos e quando perguntadas há muitas que respondem nomes de homens como escritores favoritos. E não há nada anormal ou negativo nisso, embora seja curioso como certos livros são denominados “livros pra mulher”, uma vez que todos os livros são lidos por mulheres. No entanto, isso é apenas a primeira camada dessa atmosfera.

O recorte “mulheres” possui dentro dele vários outros: mulheres negras, mulheres amarelas, mulheres indígenas, mulheres marrons, mulheres dentro da sigla LGBTQIAP+, mulheres com deficiência... e cada um desses tem ainda outros recortes, e todos esses possuem interseções entre si. Permeando tudo isso também temos as perspectivas de classe social e também as questões religiosas. Eu sou uma mulher branca, hetero e cis. Não posso falar por todas em todas as ocasiões, mas posso praticar a alteridade nas minhas leituras e também na escrita e fazer a minha parte para que outras mulheres tenham um lugar à mesa. As vitórias femininas são (ou deveriam ser) sempre coletivas, não há ganho se o benefício serve apenas para algumas.  E a verdade é que quando nos aprofundamos nos recortes, ainda temos muito chão pra andar.

Em parte, existe uma dificuldade de acesso dos grupos marginalizados a certos espaços de publicação. E por outro lado, existe também uma resistência de leitores e expectadores a receber essas histórias que saem dos padrões a que estão acostumados. Ironicamente, muitos leitores hoje em dia reclamam que não aguentam ler mais do mesmo, mas estão sempre lendo os mesmos autores que têm os mesmos tons de pele e contextos socioeconômicos. Na diversidade nasce também a originalidade, a inventividade e a ousadia de sair das caixinhas previamente impostas.

Octavia E. Butler foi uma autora que ativamente buscou escrever a própria vivência na ficção científica (embora a própria autora não classificasse o que escrevia como ficção científica), o que trouxe histórias poderosas que influenciaram e influenciam gerações de escritoras. Da mesma forma, outras autoras que pertencem a minorias ou grupos marginalizados buscam retratar os temas que as tocam, e isso de forma alguma significa escrever apenas as dificuldades inerentes dos grupos a que pertencem. Como disse Ana Maria Gonçalves no programa Roda Vida ao falar do afrofuturismo brasileiro:

O afrofuturismo me permite pensar em um futuro que não tenha sido tocado pela escravidão. Ou que não tenha sido tocado por tudo que os negros sofrem no mundo hoje em dia. A imaginação é um instrumento muito importante. A possibilidade de construção social, ela só é possível se, algum dia, for imaginada. O afrofuturismo é um projeto de fuga, mas uma fuga muito consciente de um mundo de possibilidades

Num outro movimento paralelo, o futurismo africano, iniciado pela autora nigeriana-americana Nnedi Okorafor, as histórias também tendem a visões otimistas do futuro, sempre centradas nas diversas culturas africanas (ao invés do enfoque nas questões afro-americanas, que centraliza o ocidente). É dessa autora uma das minhas ficções científicas favoritas: Binti.

Binti é uma sequência de três novelas (histórias menores que um romance e maiores que um conto) que acompanha a saga de Binti, uma jovem da etnia Himba que sonha em estudar na universidade intergalática e acaba fugindo de casa para isso. A partir daí, uma série de conflitos entre espécies alienígenas e humanos fazem com que ela descubra coisas novas sobre elementos tradicionais de sua própria cultura, centrais para a trama, e encontre uma maneira de conciliar a história e as tradições de seu povo com os próprios sonhos. É um livro de muita sensibilidade, com descrições muito palpáveis sobre gestos e objetos e como juntos representam uma cultura. Também é um livro que ousa em conceitos, que confronta o antigo e o novo e o que pode surgir desse embate. Mesmo eu não pertencendo à mesma etnia da protagonista, Binti me toca porque é também uma história com paralelos à minha. Eu saí do interior do estado do RJ, onde nem tem mar, para estudar o oceano e me tornar algo que ninguém na minha família era, e quanto mais longe eu fui (e ainda vou) mais me vejo retornando para as origens que me formaram enquanto pessoa muito antes de me formar profissional de qualquer coisa. Existem muitos terrenos em comum nas múltiplas vivências humanas, basta estar aberto para reconhecê-los. Numa das edições anteriores comentei como para mim a ficção científica traz muito do estranhamento, ao contrário do pertencimento da fantasia— esse livro está nas minhas exceções, me traz os dois, e acredito que não seja por acaso.

Eu não sou uma especialista em afrofuturismo ou futurismo africano, mas vejo nesses gêneros uma tomada (ou retomada) de narrativas que cria o próprio espaço no futuro sem abrir mão do passado. Quase como uma outra forma de enxergar o tempo, sem hierarquizar os avanços tecnológicos em detrimento do conhecimento tradicional. Isso nos leva a pensar sobre um outro aspecto da ficção científica tradicional, ela não apenas foi muito dominada por um olhar masculino, como também por uma visão muito ocidental da vida e da humanidade.

Quando estamos aqui pensando e falando que “ficção científica também é lugar de mulher” estamos também dizendo que todas as mulheres têm histórias para contar. Partindo de lugares diferentes e multiculturais, essas autoras também chegarão a visões diversificadas desse espaço especulativo. Mesmo quando, ou talvez principalmente quando, olhamos para o Brasil descobrimos a pluralidade de ficções possíveis brotando da nossa terra.

Até o momento, já passaram por aqui uma autora do Pará, duas de São Paulo, uma de Pernambuco, e hoje vem uma cearense. Cada uma delas tem visões únicas e bagagem própria de suas culturas e etnias (e ainda veremos outras autoras de outros lugares nas próximas edições), elementos que direcionam a criatividade e criam espaços em que também a nossa cultura é preservada em histórias que imaginam realidades futuras ou alternativas. Isso tudo para demonstrar quantas questões atravessam a pergunta que motivou esse projeto originalmente, e tão importante quanto comentar os avanços que ainda precisamos fazer é demarcar o que já foi conquistado.

Então, agora fiquem com uma afrofuturista que está na primeira leva de autores brasileiros de ficção científica publicados pela editora Aleph!

Entrevista Kinaya Black

Fotografia da autora que mostra uma mulher negra de cabelos pretos cacheados. A autora se apoia numa maquina de escrever, com a cabeça reclinada sobre as mãoss, e sorri para a câmera.

Kinaya Black é o pseudônimo de Gisele Sousa Santos, natural de Quixadá-CE. É mestra em Letras pela Universidade Federal do Ceará e licenciada em Letras Inglês pela Universidade Estadual do Ceará. Pesquisadora do Afrofuturismo na literatura e no audiovisual, atua como produtora e ativista literária há 10 anos no Sertão Central. É autora dos livros Eu Conheço Uzomi e Versos Livres, Como Nós, além dos contos Te encontro no Futuro, Uma História para os que nunca foram e Ventania.

 

1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?

O que difere é a forma como decidimos ficcionar. Penso que tudo o que escrevemos é uma fantasia que alimentamos até criar corpo suficiente para fazer sentido para outras pessoas. E a forma como decidimos contar isso é o que define o gênero, seja ele qual for. No livro que estou finalizando, por exemplo, eu poderia optar por colocar aparições sobrenaturais, mas preferi que o personagem enfrentasse suas questões a partir da tecnologia.

É interessante pensar que essa seria uma pergunta fácil, porque eu poderia simplesmente responder que a fantasia possui camadas que não surgem a partir de uma questão científica ou real. Mas minhas principais referências na ficção especulativa misturam muito bem os dois. Dentro do afrofuturismo, então, é só o que tem.

 

2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?

Como não fiz uma lista de elementos na pergunta anterior, prefiro me referir ao caminho em que devo estar, a partir das obras que consumi. Cresci lendo fantasia, diferente da ficção científica, que chegou na minha vida já quase na fase adulta (embora eu sempre tenha gostado dos filmes). Conheço muito mais o “cânone” da fantasia. Li pouquíssimos autores não-negros de ficção científica e, às vezes, confesso que me sinto por fora de algumas conversas, mesmo publicando ficção científica desde 2020.

Escrevo fantasia desde os 12 anos. Na verdade, sempre achei que só escreveria isso, realidade: não publiquei nada ainda. A mudança na escrita veio do encontro com “duas” obras, primeiro o filme Her e depois o livro Androides sonham com ovelhas elétricas?, além dos dois filmes chamados de Blade Runner. Essas obras me chamaram atenção para assuntos que eu já vinha trabalhando e estudando, como as questões de afeto, de relações e de construção de identidade, tema que acabou virando minha pesquisa de mestrado a partir de obras afrofuturistas.

Eu vivia um momento conturbado quando tive contato com essas obras e foi a partir delas que decidi tentar escrever ficção científica. O momento (que acontecia ao mesmo tempo da distopia brasileira que estávamos vivendo) pedia essa forma de ficcionar a fantasia que eu alimentava na minha cabeça sobre aquilo que, sozinha, eu não poderia fazer nada.

 

3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?

Eu poderia responder apenas: todas as obras de ficção científica da Octavia Butler. Mas, para além dela, Nova, do Samuel Delany, Eu, Robô e O Homem Bicentenário, do Isaac Asimov, e Uma chance de continuarmos assim, da Taiasmin Ohnmacht.

 

4) Você tem um livro prestes a ser publicado pela Editora Aleph! O que pode contar sobre a história e as suas referências pessoais que usou para escrevê-la?

Memória Cheia é a história de um homem viciado em armazenar (assim como eu) lembranças. Chico é forçado a deixar Fortaleza por conta da situação atual do país. Ele é fotógrafo e tenta reconstruir sua vida em Quixadá, ao lado de alguém por quem se apaixona durante a viagem. Eles se casam e vão morar na zona rural, mas, quando Chico fica viúvo e sem ninguém com quem compartilhar a vida, passa a depender cada vez mais da tecnologia para não se sentir só, até que seu armazenamento se esgota, e aí eu não posso contar mais.

Chico chegou para mim em 2022, quando comecei a fazer as travessias de Quixeramobim para Fortaleza por conta do mestrado. Eram cerca de quatro horas dentro de um ônibus, e às

vezes eu fazia a viagem de ida e volta no mesmo dia. Durante esses percursos, eu matava o tempo estudando, ouvindo música ou fotografando. Foi assim que, um dia, chegando próximo ao pôr do sol em Quixadá (minha cidade natal), me apaixonei pela paisagem, e traduzi isso para o meu personagem.

Outra referência pessoal importante foi ter começado a fotografar com câmera analógica junto com meu marido, que é documentarista. As experiências que tivemos juntos foram fundamentais para construir uma relação bonita dentro do livro.

 

5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?

Tudo o que escrevo já tem muito daqui e de mim. Mas, pensando no hoje, com certeza existem novas experiências que eu gostaria de transformar em ficção, como aprender a lidar com um trauma.

 

6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?

Vejo isso em tudo, desde a estética visual, que perpetua uma vibe de masculinidade, até as oportunidades que (não)recebemos.

 

7) Enquanto autora cearense, você sente que existe uma camada a mais sobre o tipo de história que as pessoas esperam que você escreva, dentro ou fora do afrofuturismo? Emendando, você sente que existe uma pressão estética sobre uma ficção científica escrita por autorias de fora do eixo Rio-São Paulo?

Sim e sim. Pensar nessa recepção me atrapalha muito. Aprendi muito tarde que meu território também é válido de fabulação e, apesar de nunca mais querer voltar atrás nisso, já ouvi pessoas, inclusive daqui, desdenharem da minha ficção científica por se passar no sertão. Como se fosse brega valorizar nossa cultura. O nome disso a gente já sabe, é viralatismo.

Foi com Kindred, da Octavia Butler, que descobri que podia escrever sobre o que eu quisesse e da maneira que eu quisesse também, e quem quiser achar ruim, que ache.

Outro ponto é que não gosto quando somos chamados de regionalistas. Uma obra que se passa no Rio ou em São Paulo não recebe esse rótulo, então por quê? Região deveria ser um filtro, não uma categoria de desvalorização.

Para finalizar, além de sentir que preciso fazer tudo duas vezes melhor por ser uma escritora negra, sinto que isso se multiplica por eu ser nordestina. Às vezes demoro horas para escolher uma palavra e, mesmo assim, nunca acho que o texto está digno. Aí retorno, mas digno para quem?

 

8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?

Existe algo muito pessoal na minha escolha por escrever e consumir ficção científica, meus medos.

 

9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?

Não concordo totalmente. Afinal, eu só tenho lido mulheres e vejo cada vez mais mulheres publicando. Mas acredito que essa percepção vem de uma construção cultural e histórica patriarcal, que moldou e continua moldando o que nós, mulheres, podemos ou não nos interessar. Uma mulher curiosa, em diferentes épocas do mundo, sempre foi vista como uma ameaça.

 

10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?

Acho que serei polêmica ao dizer que nunca vi Star Wars. E um pouco mais ao dizer que prefiro Duna. De qualquer forma, como na minha base de referências os dois coexistem em sintonia, nunca pensei que houvesse um problema. Prefiro acreditar que a transgressão de gênero é uma das coisas que faz uma obra ser absolutamente incrível.

 

Um lembrete.

Dia 08/03 teremos Filhas de Ursula ao vivo! Uma mesa-redonda reunindo as escritoras Wlange Keindé, Carol Façanha, Jana Bianchi, Luana Cruz, Lis Welch e uma tal de Lis Vilas Boas (duas Lis no mesmo espaço-tempo, incrível, não?) vai discutir os assuntos circulando as entrevistas e os textos do projeto. Você pode nos assistir presencialmente no Rio de Janeiro, no espaço da Acaso Cultural, em Botafogo. Ooooouu, pode assistir a transmissão em live através do canal de YouTube dos nossos parceiros do Fantástico Guia.

Além da mesa-redonda, haverá também uma oficina de escrita! Essa ocorrerá apenas presencialmente (mas, em algum momento do ano podemos tentar uma versão online!).

Todas as atividades serão gratuitas. Que tal passar o Dia da Mulher celebrando as Filhas de Ursula?

Câmbio, desligo.

Nos vemos em breve, falando de coisas gigantes em suas pequenices e conversando com uma autora de múltiplas funcionalidades. Além de escrever em vários gêneros, nossa convidada pinta, borda, costura e eu ainda não estou convencida que tem mesmo só dois braços.

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