- Luas e Marés
- Posts
- Filhas de Ursula #4
Filhas de Ursula #4
encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Nas encruzilhadas de hoje...
Refletimos sobre o quão realistas são e precisam ser as histórias de ficção científica e fantasia, e conversamos com a escritora e professora Cláudia Fusco.
“Começou a mentirada...”
Vou me valer dessa frase clássica de pai vendo filmes de ação para começar o texto de hoje. Afinal de contas, o quanto de REALIDADE precisa a ficção? E o que isso tem a ver com a forma com que homens e mulheres habitam esse espaço fictício?
A segunda pergunta provavelmente é mais fácil e objetiva de responder do que a primeira por um motivo muito simples: a realidade também é subjetiva e homens e mulheres vivem realidades diferentes mesmo se ocuparem os mesmos espaços/cargos/bairros/carros/etc. Antes de rebater mentalmente essa afirmação, basta fazer o exercício: quando você está andando numa rua escura e deserta qual é a sua maior preocupação? Assalto ou estupro? É claro, homens trans e homens gays podem responder essa pergunta ainda de uma outra forma, o que só reforça o ponto. Contextos diferentes geram realidades diferentes.
As leis da física, é claro, continuam valendo pra todo mundo mesmo diante da falibilidade da lei dos homens. E em geral na ficção científica a verdade exigida por uma parcela de leitores é justamente essa, a realidade que rege nosso universo e mantém corpos celestes em suas devidas rotas espaciais.
Podemos dizer que há duas grandes categorias de ficção científica: uma com cenários extremamente precisos, em que tudo funciona de forma coerente de acordo com o nosso conhecimento científico mesmo que um leitor leigo não consiga distinguir se isso tem algum impacto na trama; e outra de cenários com muitas liberdades e aproximações pois o autor sabe até onde ele consegue se safar aos olhos do leitor com a roupagem científica mesmo que os números não sobrevivam a uma checagem cuidadosa. Esse segundo caso é bem mais comum do que se pode imaginar, principalmente em histórias mais voltadas para a ação ou para o desenvolvimento de personagens. Bons enredos recebem leniência científica. Bons enredos fazem um paizão dizer “que mentirada” enquanto ele se acomoda melhor no sofá para ver no que vai dar. Um tipo não é melhor que o outro. A existência de um cenário saído diretamente de uma tese de doutorado em física não exclui uma trama envolvente e personagens cativantes, nem uma excelente maquiagem científica garante que o resto da história vai distrair os leitores do cenário de papelão, mas acho seguro supor que nenhuma dessas duas características é inerentemente mais atrativa para homens ou mulheres enquanto leitores.
Porém, é inegável que aquela primeira categoria de ficção científica, o famoso “hard sci-fi”, é fruto de um tipo específico de autores de uma determinada época. Vou tomar a liberdade de dar um spoiler de uma resposta da entrevistada de hoje e comentar sobre como por um tempo se esperava que bons autores de ficção científica na verdade fossem cientistas de formação. Como discutido na edição anterior, a presença de mulheres na ciência vem aumentando com o passar do tempo, mas não faz tanto tempo assim em que era quase impensável que elas pudessem ser líderes em suas áreas do conhecimento.
O gênero foi moldado por autores homens, e muitos desses homens... bem... Acho que esse é um momento oportuno para comentar Isaac Asimov. O autor provavelmente dispensa apresentações, mas para o caso de você não o conhecer, Asimov foi um químico e um escritor de ficção científica muito prolífico e responsável por alguns dos maiores clássicos do gênero, como “A Fundação”. Um outro fato biográfico sobre ele bem menos conhecido fora da comunidade era seu hábito de assediar mulheres, também em público. Dentro da comunidade de autores e fãs, isso era de conhecimento tão amplo que era considerado parte de uma persona inofensiva que ele assumia, afinal de contas, “naquele tempo as coisas eram diferentes...”. Recomendo a leitura desse artigo aqui escrito pelo autor Alec Nevala-Lee para mais sobre esse tópico, para esse texto basta o resumo de que ele conhecidamente apalpava e beliscava bundas e roubava beijos e deixava mulheres desconfortáveis.
Surpreende que um autor com esse comportamento escreva personagens femininas como se fossem picolés de chuchu? Mas até aí tudo bem (ha ha ha). As personagens femininas de Asimov poderiam ser sem graça e tudo teria parado por aí, se as coisas parassem por aí. Nunca param. O comportamento misógino e abusivo dele validava o comportamento de outros, e a escrita dele validava e valida até hoje a escrita de outros. E, veja bem, não estou dizendo que ele escreveu histórias ruins e que devemos esquecer que foi um autor relevante. Estou apenas apontando que ter escrito coisas boas e interessantes não apaga os aspectos negativos de suas ações. Justamente por ele ser relevante a lupa merece ser levantada. Principalmente quando tantas pessoas da atual geração de escritores se escoram no pensamento de que grandes autores do passado foram grandes justamente por não se distraírem por questões bobas e menores como a dignidade do sexo oposto. As pessoas tendem a replicar o comportamento de seus heróis, escritores inteligentes não estão isentos disso.
Então, mais uma vez, parece bem claro que não é uma questão de “meninas não gostam de especificações de navinhas” ou “as leitoras mulheres não ligam para a representação adequada de um buraco negro”, embora com certeza algumas mulheres não se interessem por isso. Deveria ser bastante lugar comum pessoas não gostarem de determinadas coisas sem que isso fosse imediatamente atrelado ao seu sexo biológico. E é muito surreal escrever sobre tudo isso porque o ano é 2026, não estamos vivendo o futuro prometido pelos Jetsons mas já estamos numa situação muito melhor do que quando Asimov saía distribuindo beliscões nos eventos, e mesmo assim ainda e sentimos a necessidade de discutir certos assuntos.
Quando olhamos para a outra ponto do nosso espectro literário, encontramos uma situação um pouco diferente. Na fantasia, em geral, existe um pouco mais de margem de manobra para ignorar a realidade. Ao mesmo tempo, existe também um apreço enorme por imitá-la.
A fidelidade ao mundo real pode se manifestar em mundos cujos ambientes e ecossistemas funcionem, em que os mapas desenhados possam parecer algo que encontraríamos no nosso planeta ou, talvez, em sistemas de magia tão bem organizados que chegam a ser intuitivos. Muitos autores, homens e mulheres, se dedicam bastante para criar mundos fictícios que pareçam saídos diretamente de um atlas. Outros optam por se inspirarem e estudarem a fundo um ou mais povos de diferentes etnias do nosso mundo real, criam sociedades complexas saídas diretamente da história humana.
Também podemos dizer que na fantasia existe um modo mais leve em que o cenário físico perde importância frente aos personagens ou aos elementos mágicos. A diferença é que na fantasia é relativamente mais fácil mascarar esse cenário reduzido, contando com as extensas referências que leitores já trazem quando vão começar um livro novo (podemos contar que a referência primária de leitores de fantasia é de elfos em associação com florestas e a natureza, em oposição a contar que um leitor tenha algum conhecimento prévio sobre ondas gravitacionais, por exemplo).
Aqui também encontramos um recurso muito comum para dar esse ar de coerência com a realidade: suposta retratação fidedigna daquele período histórico no qual a fantasia foi inspirada. Por exemplo, espera-se que em fantasias como em A Guerra dos Tronos a forja de espadas fosse como num determinado período medievalesco que usasse espadas em torneios, ou talvez, espera-se que mulheres sejam regularmente subjugadas pois na era medieval...
Você provavelmente já tinha percebido aonde eu queria chegar, não é?
Também na fantasia realista encontramos espaços que podem ser hostis para mulheres, afinal de contas a história da humanidade foi e é hostil com mulheres. E a retratação dessas dificuldades da vida feminina não se resume a autores homens, é importante notar. A série Outlander de Diana Gabaldon tem mais estupros e tentativas de estupro que fantasias escritas por homens. E, claro, nem tudo se resume a essa violência sexual tão direta. Há muitas formas de diminuir e desprezar personagens femininas sem nem mesmo lhe dar um único arranhão. Mocinhas sem personalidade nem vontade própria, rivalidade feminina gratuita, romantização do sofrimento feminino...
Ora ora ora, quem diria, talvez mulheres devessem estar igualmente desconfortáveis na fantasia? Bom, provavelmente em algum momento estiveram, mas foram abrindo caminho por portais que por acaso lhe eram mais acessíveis. Bruxas, deusas, sacerdotisas, princesas... arquétipos femininos sempre povoaram a base das histórias fantásticas, e mesmo que elas inicialmente não fossem tããão legais assim essas figuras femininas eram um ponto de partida bem mais acessível para se enxergar enquanto protagonistas de uma história. Esses arquétipos femininos na ficção científica, sobretudo nos livros mais clássicos que moldaram o gênero como o conhecemos hoje, são muito mais difíceis de encontrar. O curioso (ou nem tanto), é que esses arquétipos são muito reais pois estão relacionados à vivência humana, mas não dependem em nada de uma dose de realismo nu e cru para funcionarem e contarem uma boa história.
“Ai, mas na era medieval uma mulher nunca pipipi popopó...” Verdade, que bom então que temos o poder de imaginar outras possibilidades. “Ah, mas não faz sentido que as histórias futuristas tratem de assuntos de gênero pois já teremos superado...” Teremos, mesmo? Até pouco tempo os cientistas da NASA não sabiam quantos absorventes estocar para astronautas mulheres.
Então, se retomarmos as duas primeiras perguntas desse texto, a resposta da segunda interfere diretamente na resposta da primeira. Se a nossa realidade é subjetiva e subordinada às características físicas e origem de um indivíduo, o realismo das histórias também é, consequentemente o que cada leitor demanda de palpabilidade varia bastante.
Quando tratamos de ficção especulativa é um pouco impossível não falar de escapismo, de fugir da realidade num livro. E aí é um exercício interessante nos questionar quem são as pessoas que teriam mais necessidade, ou simplesmente mais prazer, em sair das condições mundanas para viver algo diferente, ainda que na imaginação. E também nos perguntar como seria esse algo diferente. Qual seria a principal preocupação de uma pessoa andando numa rua escura e deserta independente de ser homem ou mulher? No final das contas, tanto a ficção científica quanto a fantasia podem proporcionar escapismo, e ambas podem frustrar quem deseja encontrar isso numa história e se depara apenas com mais do mesmo, uma versão élfica ou alienígena do noticiário humano.
E ainda numa outra camada, sabemos que as histórias (assim como a arte como um todo) tem um poder transformador. Ajuda as pessoas enxergarem possibilidades que estão escondidas sob a sujeira do dia a dia, ou talvez propositalmente escondida por quem prefere pessoas desanimadas com a vida. Talvez, a realidade precise muito mais da ficção do que a ficção precisa de realismo.
“Ah, mas eu gosto que meus mundos pareçam reais e...” Sim, pode continuar preferindo. Esse texto todo na verdade não é sobre a forma como o vento circula ao redor da montanha e nem sobre as teorias mais factíveis sobre viagem no tempo. Pense sobre a formação dos buracos negros e sobre a rua escura e deserta enquanto lê a entrevista da autora de hoje, que praticamente deu uma aula a cada resposta!
Entrevista Cláudia Fusco

Cláudia Fusco é escritora, roteirista e mestre em Estudos de Ficção Científica pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Dá cursos e palestras sobre narrativas, gênero, cultura pop, fantasia e ficção científica. Tem passagem por espaços como USP, Casa do Saber, Bienal do Livro, MIS-SP, Sesc, entre outros. Atualmente, é professora de pós-graduação da ESPM-SP, do LABPUB e do Instituto Vera Cruz.
1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?
Já amo essa pergunta! Acho que daria uma resposta diferente em cada fase da minha vida, haha. Hoje, acho que acredito nisso: a fantasia escolhe acreditar que canalizamos magia do mundo como recurso palpável, domesticável e inesgotável (ou quase). Ficção científica enquadra o mundo a partir dos seus recursos esgotáveis e analisa e extrapola as consequências disso. Também gosto demais da definição do Darko Suvin e o estranhamento cognitivo e o aspecto do novum da ficção científica, embora ache que tem muita fantasia por aí que brinca nesse território também. Essas coisas têm fronteiras permeáveis e esquisitas e isso é a graça da coisa toda. Eu amo.
2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?
Vou confessar aqui pela primeira vez que sempre me senti uma farsante, porque tenho mestrado em ficção científica mas sempre fui uma garota da fantasia, haha. Acho que estou no meio do caminho hoje. Amo os dois gêneros demais. Tenho escrito mais fantasia recentemente, mas tenho algumas coisas de fc na gaveta que estão só esperando sair pra tomar um ar.
3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?
Tenho infinitas! Vou tentar limitar aqui, mas: tudo da Ursula, obviamente (meus favoritos são Omelas, The Telling e A Mão Esquerda da Escuridão, mas são muitos, tudo é bom demais); tudo de Becky Chambers (torcendo pra trazerem To Be Taught, If Fortunate pro Brasil, um socão de umas 120 páginas)... O Guia do Mochileiro das Galáxias foi parte do claro esquema de pirâmide que me fez virar escritora... Flores Para Algernon. A Quinta Estação. O Conto da Aia. Não me Abandone Jamais. A Chegada. Frankenstein. Tem uma fc corporativa que eu amo de paixão, completamente biruta, que chama Several People Are Typing. Comecei agora a série do Robô Assassino da Martha Wells e estou achando uma delicinha. E claro, Marea Infinitus pisca ;) Tudo da Anna Martino me deixa feliz demais também, tipo Senhor Tempo Bom. Tenho certeza que tô esquecendo livros importantíssimos pra mim (e nem falei de filmes), mas vou tentar seguir em frente!!
4) Você tem mestrado em ficção científica pela Universidade de Liverpool! Pode nos contar um pouco sobre como foi seu percurso no mestrado, o que estudou, o que fez? E também, qual o perfil médio dos alunos do mesmo curso que você?
Siiiim! Então, fui a primeira pessoa da América Latina a fazer esse curso, então posso dizer que o meu percurso foi.. interessante haha. Eu tinha uma síndrome de impostora avassaladora no começo, especialmente porque os outros alunos tinham formação em letras e inglês e praticamente todos eram britânicos (com exceção de uma menina americana e um grande amigo indiano, que fez apenas três meses do curso como aluno visitante, como parte do seu doutorado). Era todo mundo muito nerd, claro haha, e também muito acolhedores, mas o começo foi difícil. A gente tinha quatro matérias, duas por semestre: uma era focada na história da ficção científica, outra em utopias e distopias, uma disciplina inteira sobre a nossa querida Ursulinha e a minha favorita de todas, Time and Consciousness, sobre ficção científica como ferramenta para o estudo da filosofia. Quando voltei pro Brasil, era exatamente esse tipo de coisa que eu queria abordar nas minhas aulas. E estamos aí há mais de dez anos falando sobre isso! Ah, e a gente tinha que ler em média uns 3-4 livros por semana, além dos textos de apoio, que às vezes eu gostava mais do que os livros em si haha. Era bem intenso, eu amava demais. Lembro muito claramente de ler Frankenstein no hostel, dividindo o quarto com outras sete pessoas, porque tinha levado o cano da minha habitação. Saudades!
5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?
Digamos que eu já tenha um plano (*emoji de olhinhos*) e que ele tenha tudo a ver com influenciadores, personas online, inteligência artificial e relacionamentos humanos. Eu sou muito fascinada por esse universo para não escrever mais a respeito. Tenho um histórico como repórter de entretenimento que não me larga!
6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?
Acho que isso já foi mais verdade... mas é um ponto interessante, sim. Acho que tem muitas questões aí. A primeira é que, especialmente na segunda metade do século XX, se consolidou uma narrativa de que os bons autores de FC eram cientistas (de exatas) primeiro e escritores depois, como é o caso do Arthur C. Clarke e do Isaac Asimov. É daí que se fortalecem as expectativas de que a ficção científica deveria ter esse poder de "prever" o futuro, já que esses caras tinham mais contato com a ciência que vinha sendo feita e partiam de alguns pressupostos pra extrapolar isso. Acho que a FC sofre do mesmo "clube do bolinha" que as ciências exatas sofreram por muito tempo (e talvez ainda sofram) porque eram basicamente a mesma turma que queria se ver nos livros e também nos estudos acadêmicos sobre FC, que começam para valer nos anos 1950. Autores importantes romperam com essa exclusividade curricular, digamos assim, como o Ray Bradbury e, mais adiante, o Philip K. Dick e a própria Ursula, claro. Só que aí caímos em um outro problema: quando esses livros crescem em popularidade e ganham mais audiência, mais mulheres leem e questionam o fato de que as personagens femininas têm a personalidade de um papelão molhado na maioria dos "clássicos" do gênero. E aí esses caras dão um sorriso amarelo e dizem "ai, ai, ai, não sei escrever mulheres, que cabeça a minha!", como era o caso do Dick e especialmente do Asimov, e seguiam em frente. Fica estabelecida uma narrativa de que essas histórias são ótimas, ainda que sem mulheres, e isso torna o gênero mais hostil para as leitoras e autoras. Até a Ursula quase caiu nessa cilada, foi um ponto de conflito por décadas com autoras feministas do seu tempo. Sou uma otimista e realmente acho que esse cenário está mudando; nas minhas aulas sobre FC, mulheres estão presentes em peso. Realmente acho que existe um apetite grande de leitoras e escritoras. Isso sem falar que acho que todo mundo, hoje em dia, concorda que a Mary Shelley foi a primeira autora de FC literária, por inúmeros motivos. Isso ajuda muito!
7) Enquanto especialista na área, professora e também escritora, você percebe alguma mudança no que pode ser considerado ficção científica? As fronteiras da ficção científica com outros gêneros literários são mais fáceis de borrar do que os limites entre ficção científica e fantasia?
Hmm, acho que você está falando sobre a velha sensação do "isso é muito Black Mirror", né? Pensando aqui... não sei se algo mudou na definição de FC, mas acho que hoje reconhecemos que mais coisas são ficção científica. Nossa visão se expandiu porque temos mais obras de arte brincando com os temas e símbolos da ficção científica. Eu sempre fui a favor disso, vale dizer! Histórias como Estação Onze são tão ficção científica quanto Ela, GATTACA, A Substância (que também é body horror) ou Perdido em Marte. Acho divertido quando pessoas assistem a filmes com robôs, naves espaciais, experimentações científicas, realidades alternativas, pandemias fictícias e inteligência artificial e ficam espantadas que é ficção científica. Isso me lembra uma piada da época do mestrado: algum crítico literário famoso dizia que 1984 não era ficção científica (spoiler: é sim) porque... é bom. Hahaha. Acho que estamos aprendendo a reenxergar o gênero, que sempre discutiu sociedades saturadas de tecnologia, dentro das lentes de uma sociedade extremamente saturada de tecnologia. Foi nossa relação com essas histórias que mudou e se expandiu.
8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?
Eu brinco que a minha formação como pesquisadora e autora de ficção científica nasceu das reportagens do Fantástico sobre ETs, que eu odiavaaa quando era pequena haha Mas sim, super! Cresci numa casa cheia de livros sobre astronomia, com um pai completamente fascinado por ciências de todos os tipos. Minha melhor amiga de infância é física teórica e filha de físicos, o que me influenciou muito também. Via muitos filmes, como o Gattaca que mencionei ali em cima e Minority Report, que me marcaram demais. Quando entendi que essas histórias tinham elementos humanos profundos e filosóficos, me apaixonei pra valer. E O Guia do Mochileiro das Galáxias tornou isso irremediável: além de se passar no espaço, era engraçado. Como uma ficção científica ousava ser engraçada nesse nível? Aí já era.
9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?
Acho que dei alguns spoilers dessa resposta ali em cima, mas a ausência de personagens mulheres interessantes, com narrativas próprias, sem dúvida é um grande problema. Lembro de querer muito amar, sem reservas, O Fim da Eternidade do Isaac Asimov, mas a personagem feminina ali era um peso morto que eu não conseguia ignorar. Também existe o fato de que a comunidade pode ser mais receptiva. Mulheres que escrevem FC, vamos nos unir! Vamos criar rodas de conversa, vamos escrever muito e ler umas às outras. Uma vez, em um bate-papo sobre A Rainha do Ignoto, uma autora disse algo como: "estou cansada de listas de mulheres escritoras. Me fale sobre o que elas escrevem. Leiam. Discutam suas obras com profundidade", da mesma forma que falamos sobre Fundação, por exemplo, até hoje. Eu não poderia concordar mais.
10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?
Hehehe. Sempre que tenho tempo sobrando em aula, jogo essa bomba e saio correndo! A resposta certa é sim para todas as alternativas. Sci-fantasy. É o que o seu coração mandar.
Câmbio, desligo.
Não, espera!
Na edição passada eu comentei que uma coisa muito legal tinha acontecido. Bom, pra mim é com certeza muito legal porque quando eu tive a ideia eu não achei que ia dar certo, mas está dando! O Filhas de Úrsula está crescendo e além de habitar esse espaço eletrônico, você agora poderá nos encontrar pessoalmente no Rio de Janeiro! No dia 08/03 (sim, no Dia da Mulher) essa conversa engessada vai se transformar num diálogo dinâmico em forma de mesa-redonda com algumas das autoras que apareceram e aparecerão por aqui. Será no espaço da Acaso Cultural, em Botafogo, no Rio de Janeiro, como parte da programação do Mês da Mulher. Mais detalhes aqui. Não mora nas proximidades das terras cariocas? Não tema! Nossos parceiros do Fantástico Guia irão transmitir ao vivo em live pelo YouTube! As maravilhas da tecnologia, não é mesmo?
Além da mesa-redonda, nossas encruzilhadas especulativas também vão incluir uma oficina de escrita, a ser realizada também no mesmo dia, depois da mesa. E tudo será gratuito, tanto para assistir a mesa quanto para fazer a oficina. No entanto, essa parte do evento vai acontecer apenas em modo presencial, por isso as vagas serão limitadas por conta da capacidade do espaço. Preencham o formulário para sabermos que você tem interesse em guardar uma vaga!
Câmbio, desligo. De verdade agora.
Na próxima edição voltamos para um território cujos limites entre fantasia e ficção científica ficam bem borrados; e na nossa tour pelas autoras brasileiras voltamos para o nordeste para conversar com uma escritora bem futurista.
Reply