Filhas de Úrsula #3

encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

ERRATA: Provando que não se deve trabalhar até tarde no próprio aniversário, a entrevista da Fernanda foi com um pequeno erro: perguntas pra Giu foram misturadas com respostas da Fernanda! Peço desculpas pelo ocorrido e aqui está a versão correta:

Nas encruzilhadas de hoje...

Pensamos sobre como colocar mulheres na rota da ciência e sobre o estranhamento que nos é arrancado, além de vermos a entrevista da mãe dos bichos estranhos, Fernanda Castro.

O lugar do esquisito

É um pouco impossível falar de mulheres na ficção científica sem falar de mulheres na ciência como um todo. Eu por acaso estou nesses dois lugares, e por acaso também sou de uma geração que testemunhou muitas viradas efetivas graças a luta de mulheres que vieram antes de mim.

Antes de mais nada, é justo fazer o disclaimer de que por ciências aqui estou me referindo ao que chamamos de “áreas duras da ciência”. As ciências sociais são ciências e merecem ser tratadas como tal, mas as ciências exatas e as ciências da terra são os campos onde historicamente as mulheres enfrentaram as maiores barreiras e apagamentos, inclusive até os dias de hoje. Em inglês as áreas duras geralmente estão sob o guarda-chuva do termo STEM: Science, Technology, Engineering and Math. Então sempre que você ver uma discussão sobre “women in STEM” está falando da presença de mulheres nesses campos de pesquisa. Em português não temos um termo específico, usamos apenas “ciências” para resumir tudo, e na verdade falei do STEM apenas para apontar que essa não é uma questão única do lado de cá do Equador. Mesmo em outras nações que estão na ponta dos avanços científicos e tecnológicos isso é um assunto (o Brasil também está, em muitas áreas, por favor deixe seu vira-latismo na porta quando pensar sobre a ciência brasileira). E mesmo nos dias de hoje em que as mulheres já são a maioria nas salas de aula e em muitos ambientes acadêmicos, isso ainda é um assunto.

A presença e a autonomia feminina sempre será um assunto enquanto houver quem questione a nossa legitimidade em qualquer espaço.

O território científico que ocupamos hoje foi duramente conquistado, estamos todas trabalhando sobre os ombros de gigantas em todas as áreas duras: química, física, matemática, astronomia, geologia, biologia, oceanografia… Não existe uma única área científica com que mulheres tenham mais afinidade, no entanto existe uma enorme diferença na exposição de meninas às ciências. Atualmente menos, bem menos do que na minha geração e muito menos do que nas gerações anteriores às minhas. Porém, agora na qualidade de mãe de menina eu tenho um terceiro lugar de fala nessa conversa para dizer que ainda há disparidade: o setor de roupas pra bebês está cheio de dinossauros e planetas e naves nas roupinhas dos meninos, símbolos que não encontramos nas roupinhas das meninas. Incentivo está em tudo: no que vestimos, no que brincamos, no que vemos e lemos e ouvimos. A UNESCO estabeleceu até um Dia Nacional de Meninas e Mulheres nas Ciências, que é dia 11 de fevereiro, porque reconhecer o tanto que avançamos não significa que atingimos um ponto ideal. Todo trabalho para avanços sociais é contínuo, porque se pararmos as forças contrárias puxam tudo para trás e está aí a crise vacinal que não me deixa mentir.

Quando transportamos tudo isso para a ficção, o mesmo princípio se mantém. É difícil criar afinidades com histórias em que você não se enxerga. É possível apreciá-las, se divertir com elas de muitas formas e até se tornar fã — as mulheres vem aprendendo como tirar o melhor de histórias que não as tratam muito bem desde sempre, é uma habilidade que todo ser humano é capaz de cultivar se estiver inserido num ambiente propício. Mas existe algo de poderoso em se enxergar nas histórias, acompanhar uma personagem que poderia muito bem ser você vindo de uma situação familiar a sua.

Meu primeiro contato real com ficção científica provavelmente foi Star Wars, mas não nos filmes e sim com a Turma da Mônica. O Cascão era super fã de “Berro nas Estrelas” e eu sabia que era a versão da turma da Mônica de algo muito famoso do mundo real, então quis assistir. Foi uma paixão instantânea, tinha uma PRINCESA no ESPAÇO e ela era mandona e atirava com as arminhas de pew pew pew. E eu queria que ela também pudesse usar a Força e no final de tudo ela PODIA SIM. Anos mais tarde quando o tão polêmico Ameaça Fantasma estreou e vimos a Ordem Jedi em seu apogeu antes da queda, tinha mulheres jedi pra todo lado e meu coraçãozinho ficou ainda mais derretido. A Princesa Léa me puxou pra dentro da Millenium Falcon tanto quanto a Força e o Chewbacca, e me mostrou que eu podia procurar as mulheres no espaço. Com um pouco mais de tempo lá estava ela, Capitã Janeway de Star Trek Voyager. Não mais uma princesa, uma CAPITÃ. A coisa só melhorava. E paralelo a tudo isso, na televisão também estavam eles: os documentários.

Eu não fui criada em uma casa de cientistas, mas fui criada num lar que valorizava o conhecimento (conhecimento ninguém te tira, meus pais sempre disseram), isso foi já alguns passos na estrada para a academia. Meu pai diz que desde bem pequenininha eu gostava de olhar as estrelas, ele fez um banquinho pra eu poder alcançar a janela e ficar olhando pro céu. Não lembro com que idade eu anunciei que queria ser astrônoma, não sei nem se foi antes ou depois de Star Wars, mas depois desse solene anúncio um tio me deu um livro sobre astronomia, desses com muitas figuras e explicações simples para leigos. Eu folheava aquilo todos os dias por um tempo. Parava pra ver qualquer documentário. Meu passeio favorito da escola até hoje foi uma excursão ao Planetário do Rio onde minhas amigas brigaram comigo por perguntar demais na hora das perguntas. Numa viagem a Ouro Preto pude ver Marte e Júpiter no telescópio do observatório da cidade.

Então você agora talvez esteja se perguntando: como foi que você foi parar na oceanografia??

Bom, em metáfora o céu e o mar não são tão diferentes, são espelhos, já dizia o poeta. A versão resumida: por causa de Free Willy. A versão longa envolve a complexa realidade da adolescência e em algum momento perceber que minhas maiores habilidades definitivamente não estavam em matemática e física (embora eu tenha chegado a passar pra segunda etapa de uma olimpíada de física, ok?), e também envolve fazer um teste vocacional naquela revista Guia do Estudante (ainda existe??) e descobrir por meio dela uma tal de Oceanografia. E aí sim, tendo descoberto a oceanografia e com as muitas horas de documentários acumulados, me lembrar do meu filme favorito Free Willy. Pela primeira vez trabalhar com o mar e com as baleias tinha forma de carreia e não de sonho. O oceano não precisava ser só meu amor de verão quando eu ia passar uns dias na praia durante as férias.

Vou interromper as lembranças por aqui porque esse texto não é sobre mim, exatamente. Estou aqui compartilhando essas memórias para ilustrar que eu tive muita sorte, muitos privilégios, a começar por ter sido incentivada mesmo quando meus arredores não tinham exemplos diretos. Lembrem-se, eu nasci nos anos 90, a internet não era o que é hoje. Foi preciso um enorme conjunto de fatores, dentre os quais a ficção foi essencial. A minha realidade me deu as condições e a ficção me deu os sonhos. Isso valeu tanto para me tornar cientista quanto escritora.

Se vocês repararem nas respostas das autoras entrevistadas, principalmente no que diz respeito ao que as influenciou na intimidade com a ficção científica hoje, vão ver que os percursos delas não foram tão diferentes do meu. Vivo repetindo que arte se alimenta de arte, mas na verdade muito mais se alimenta de arte: sonhos, esperanças, inquietações, perturbações, emoções, amores e desamores. A ciência também.

A presença de mulheres na ciência está intimamente conectada à presença de mulheres na ficção científica, e estimular essa permanência e ocupação cada vez maior em ambos os campos passa mais ou menos pelas mesmas vias.

Uma dessas vias atravessa o que comentei na edição passada: o estranhamento. Precisamos incentivar as meninas a serem esquisitas? Não, é mais do que isso: precisamos proteger a estranheza inerente a cada uma. Todo mundo nasce e desenvolve gostos próprios, afinidades e interesses a partir daquilo que convive. A criação em torno de costumes sociais vai aos poucos lapidando o indivíduo. O que ganham de presente, o que são proibidas de fazer, o que são ensinadas a replicar e o que são constrangidas por escolher… tudo isso é radicalmente diferente entre meninos e meninas, ainda hoje. Como eu disse, já mudou bastante, mas é um trabalho contínuo para que não percamos nenhum um tantinho do território. Proteger a individualidade das meninas, na verdade, é uma tarefa que dura até a adolescência e a vida adulta cada vez mais plástica e artificial.

O corpo feminino por si só carrega uma série de características que nos são estranhas porque não foi estudado adequadamente durante a maior parte do desenvolvimento da ciência moderna. A biologia feminina é estranha comparada a masculina. Habitamos um invólucro de matéria orgânica que sangra e se reconstrói todo mês, que com o passar dos anos passa por mudanças complexas, que é capaz de gestar outro indivíduo e alimentá-lo a partir de seus próprios sangue e ossos. Praticamente coisa de ficção científica… Por um outro aspecto, o direito feminino a esquisitice é negado até mesmo na intimidade dos nossos corpos, sempre sob o julgo da sociedade. Um corpo mal tratado pelos milhares de procedimentos estéticos que visam nos colocar num padrão único de beleza simplesmente não tem permissão de ser… diferente.

Se a ficção científica nos confronta com o estranho, quem é a figura da mulher na ficção científica? Em muitas histórias ela é o próprio elemento do esquisito, um mistério tão complexo para os homens que ela se torna uma experiência que deu errado, ou quem sabe um androide ou inteligência artificial servil e ao mesmo tempo perigosa. Sobre as inteligências artificiais terem voz e aparência de mulher, recomendo muito o episódio de Bobagens Imperdíveis da escritora Aline Valek, que nessa temporada do podcast está justamente também discutindo a ficção científica por vários aspectos (olha mais um zeitgeist aí).

A mulher no lugar de cientista, de capitã (de princesa armada, de política diplomata intergalática, de pilota, de rebelde, de mestre, e outras posições que não são simplesmente uma vítima ou um prêmio ou um monstro) durante muito tempo esteve presente na ficção científica justamente por ser algo tão diferente da realidade. Uma ideia de que “no futuro as mulheres poderão ser o que quiserem” transmitida através da ficção. E se estamos em posição melhor hoje do que no passado, precisamos também garantir que as que vierem depois estejam ainda melhor no futuro. Precisamos continuar projetando e trabalhando essa imagem, essa normalidade.

Talvez esse texto de hoje seja também um compromisso comigo mesma em relação a minha filha. Ser ainda melhor por ela do que foram por mim. Trabalhar para que ela não escute “isso não é coisa de menina” e possa reter todas as esquisitices que quiser. Ser um monstro da lagoa por escolha própria é muito melhor do que ser a princesa encastelada por imposição de um reino distante.

Falando em esquisitice, deixo vocês por aqui com a própria mãe de monstros, com interesses lindamente estranhos e estranhamente belos. Pode falar, Fernanda Versa Castro.

Entrevista Fernanda Castro

 

Fotografia da autora Fernanda Castro, uma mulher branca de cabelos cacheados pretos. A autora está apoiada numa porta verde, com o queixo apoado numa mão enquanto sorri para um ponto longe da câmera.

Fernanda Castro é autora, tradutora e preparadora de texto com experiência em várias casas editoriais. Publicou Mariposa Vermelha pela editora Suma, O fantasma de Cora pela editora Gutenberg, a noveleta Lágrimas de carne pela editora Dame Blanche e também ficções curtas em português e inglês. Mora em Recife com o marido e vários bichos esquisitos. Foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Romance de Entretenimento.

 

1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, enquanto pessoa que escreve, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?

Acho que tem muito a ver com o viés com que o elemento especulativo é tratado dentro daquele universo, se sob a ótica da ciência ou do desconhecido, mesmo que seja tudo inventado. Também noto uma tendência da ficção científica de se debruçar sobre as questões do futuro de maneira global, sobretudo em aspectos sociais/políticos. O passado e as questões do eu me parecem um terreno mais habitado pela fantasia. Não é uma regra geral, é claro, mas é o que me vem à cabeça quando penso nos dois gêneros.

 

2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?

Eu sou uma leitora/escritora flexível no que diz respeito a gêneros literários, não me importo de sair da zona de conforto. Porém, sempre sigo temas que me atraem — por exemplo, amo livros introspectivos em que “nada acontece", prefiro um bom arco de personagem a um bom plot twist, amo histórias geracionais e tenho uma preguiça imensa de debater o futuro distópico do capitalismo com robôs, IAs e grandes corporações vilanescas. E aí isso meio que naturalmente me faz pender para a fantasia. Como latina, principalmente, tenho um carinho especial por livros de realismo mágico, que me causam uma identificação tão latente com minha própria identidade, jornada de vida e contexto histórico que é difícil de competir. Sou apaixonada pela maneira com que o inexplicável é só mais uma terça-feira em nossas vidas. Detesto quando um livro quer me explicar minúcias técnicas.

Ainda assim, acho que há uma zona de intersecção dos meus interesses que me atrai muito na ficção científica: qualquer livro que trate de biologia, botânica, comportamento animal, evolução etc etc. Eu gosto de coisa viva e coisa morta, não gosto de tecnologia.

Pensando aqui, existe um conto muito muito bom, em inglês, chamado The Tale of the Three Beautiful Raptor Sisters, and the Prince Who Was Made of Meat, que mistura fantasia e ficção científica sem pedir licença. Gostaria de ter escrito essa história.

(Também já li muitos romances hot com alienígenas, o que talvez resuma melhor essa minha longa resposta.)

 

3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?

No cinema, tenho alguns xodozinhos, como Jurassic Park, MIB e E.T. — óbvio, já que os três falam sobre criaturas e relações humanas (talvez eu seja uma fã de ficção científica de Sessão da Tarde?) e também A Chegada e o maravilhoso Coerência, que eu tento obrigar todo mundo a ver sempre que possível.

Nos livros, eu recomendaria Becky Chambers, John Scalzi, Connie Willis, Octavia Butler, Anna Martino, Aline Valek, Renan Bernardo, Jana Bianchi, a dona desta newsletter e o meu livro favorito de FC que eu adoraria ter escrito: Aniquilação, de Jeff Vandermeer.

Ah, e eu amo Firefly, Sense8 e She-Ra e as Princesas do Poder!

 

4) Apesar de ser uma história de fantasmas e mistério, O Fantasma de Cora na verdade traz a ciência para a trama com bastante naturalidade. Como foi o processo de encontrar e escrever esse elemento (sem spoilers, se conseguir hahahaha)?

Acho que o fato de ser uma coisa ANTIGA me ajudou bastante. Essa ciência “analógica” tem certo charme, uma estética toda sua. Autópsias feitas na base da pinça e do formol, boticários com dedos queimados de produtos químicos, coleções de insetos presos a alfinetes, anotações em diários… há um fascínio nisso tudo, um ar de curiosidade mórbida e de introspecção que acaba criando um terreno muito fértil para histórias e metáforas.

 

5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?

Certamente meu amor por bichos esquisitos. Tenho algumas ideias engavetadas sobre animais antropomorfizados. Adoraria discutir diferentes linguagens e diferentes formas de demonstrar afeto e confiança. Por exemplo, tendo duas porquinhas-da-índia em casa, sei que a maior prova de amor que elas me dão é dormir de olhos fechados e pernas esticadas na minha frente. Mas não é comum que as pessoas identifiquem gestos de afeição que não se pareçam com os nossos. Acho um exercício fascinante tentar se conectar a um animal através da perspectiva dele.

 

6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?

Acho que o mercado literário em si está mais aberto a publicar mulheres na ficção científica, e recentemente tenho visto mais autoras sendo consagradas em premiações (Butler, Atwood, Jemisin, Okorafor…) do que autores. Mas é um movimento bem menor do que na fantasia, talvez por causa da combinação de forças da fantasia com o romance, que impulsiona muito as vendas. Porém, acho que o grosso do público fiel à ficção científica ainda é majoritariamente masculino. Na média, minha impressão é de que uma grande autora de ficção científica sempre vai vender menos do que uma grande autora de fantasia, simplesmente porque o público feminino está mais concentrado em um dos lados da balança.

 

7) Você acredita que o público que você alcançou com seus romances e contos, todos com viés fantástico, te acompanharia se você escrevesse uma ficção científica?

Acredito que sim? Espero que sim? Acho que produzi uma gama tão diversa de histórias que o público já está acostumado a receber um cardápio variado… mas sempre com o meu tempero, haha. Não acho que seja exatamente o meu elemento fantástico que faz com que as pessoas me leiam.

 

8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?

Pensando em retrospecto, acho que dois fatores contribuíram muito. O primeiro foi ter tido irmã e primas mais velhas que influenciaram as minhas referências. A geração oitentista teve um boom muito grande de ficção científica no cinema (skates voadores, caçadores de fantasmas etc etc). Consumi tudo isso antes da idade, algo que não era compartilhado com meus colegas de escola, por exemplo. Nasci nos anos 90, então, se não tivesse tido esse estímulo, provavelmente só teria referências a partir dos anos 2000.

O segundo foi ter disponível um ambiente propício para as ciências. Minha casa sempre teve livros de biologia e documentários no Discovery Channel em abundância. Aos domingos, a família se reunia para assistir ao finado Planeta Terra na Globo, e meus pais não achavam estranho que eu criasse lagartas em potes de sorvete. Fui várias vezes a zoológicos, museus e jardins botânicos. Lembro de um ano em que pedi um microscópio de presente de Natal, e de passar semanas catando formigas, folhas, sementes e qualquer coisa que eu pudesse investigar.

Curiosamente, todas essas lembranças são da infância. Mesmo tendo feito uma graduação em tecnologia (quem me conhece sabe do meu passado nefasto como programadora), sinto que o amor pela ciência se constrói na tenra idade.

 

9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?

Nossa, tem tanta coisa envolvida que eu não saberia nem por onde começar… É uma grande bola de neve. Mas precisaríamos passar pelos papéis de gênero que impedem meninas de terem acesso a brincadeiras e livros com viés científico, pelo fato de que mulheres ainda não ocupam cargos de comando de forma igualitária, pela crença de que as ciências exatas são um território masculino e um indicador de que você não têm sentimentos, pela própria noção de que gostar de ciências exatas é de alguma forma ter que antagonizar as ciências humanas e qualquer manifestação artística, pelo fato de que o ambiente geek costuma ser extremamente misógino, pelos fóruns online estarem cheios de incels e predadores sexuais. Enfim… Mas para mim é parecido com a crença de que futebol é mais atrativo para meninos do que para meninas. Não há nada que torne o futebol um esporte desinteressante para mulheres, a não ser o entorno.

 

10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?

Eu diria que os dois, mas provavelmente Star Wars é algo definido por si mesmo. Uma história que não se preocupa muito com as convenções de gênero. Não vamos esquecer, por exemplo, o quanto Star Wars aposta no romance.

Câmbio, desligo.

Vocês devem ter percebido que essa edição veio bem pertinho da última. Pois é. Aconteceu uma coisa legal com o Filhas de Úrsula e por isso estou acelerando um pouco o envio dos textos! Aguardem mais novidades, e fiquem de olho para a próxima edição. De Pernambuco, vamos descer para São Paulo para conversar com alguém que dá aula sobre o assunto...

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