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Filhas de Úrsula #2
encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa
Nas encruzilhadas de hoje...
Refletimos sobre a separação entre ficção científica e fantasia, e conversamos com a autora Giu Murakami.
Onde estão os limites? Ou melhor, será que os limites importam?
Originalmente o “Filhas de Úrsula” tinha outro nome. Inclusive, deixo aqui o agradecimento a Carol Façanha por ter sugerido esse numa seção de brainstorming regada a chai latte e casinhas de biscoito de gengibre. Várias das entrevistadas ainda receberam as perguntas com um título longo, “A fantasia da ficção científica entre luas e marés”, porque eu queria muito que esse fosse um tema relevante dentro desse projeto. Acho que para responder a pergunta maior, se mulheres ficam mais confortáveis dentro de um gênero literário do que no outro, precisamos antes compreender as fronteiras entre fantasia e ficção científica. O que teria na fantasia que supostamente seria mais atrativo para mulheres?
Eu tenho certeza de que existem muitos estudos acadêmicos sobre as distinções entre os dois gêneros, e tenho a sensação de que há um certo zeitgeist* pairando sobre ele atualmente porque o tradicional congresso “Glaskow International Fantasy Conversations” terá como tema esse ano “The Techonologies of the Fantastic”. As tecnologias do fantástico. Na página do evento encontramos uma lista de perguntas que são de especial interesse para o envio de trabalhos, e aproveito para trazer uma breve citação de lá:
“Many addendums have been made over the years to Arthur C. Clarke’s famous third law: ‘any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic’ (‘Technology and the Future’), from Professor Barry Gehm’s corollary, ‘any technology distinguishable from magic is insufficiently advanced’ (Analog) to Terry Pratchett, Ian Stewart, and Jack Cohen’s explanatory statement in The Science of Discworld that ‘Technology works because whoever built it in the first place figured out enough of the rules of the universe to make the technology do what was required of it … With magic, in contrast, things work because people want them to’. Such discourse leaves us asking what, if anything, fundamentally separates the technological from the magical?
Ao longo dos anos, muitos adendos foram feitos à famosa terceira lei de Arthur C. Clarke: "qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia" ("Tecnologia e o Futuro"), desde o corolário do Professor Barry Gehm, "qualquer tecnologia distinguível da magia é insuficientemente avançada" (Analog), até a declaração explicativa de Terry Pratchett, Ian Stewart e Jack Cohen em A Ciência de Discworld, de que "a tecnologia funciona porque quem a construiu descobriu regras suficientes do universo para fazer com que a tecnologia fizesse o que era necessário... Com a magia, em contraste, as coisas funcionam porque as pessoas querem que funcionem". Tal discurso nos leva a perguntar o que, se é que existe algo, separa fundamentalmente o tecnológico do mágico?”
*zeitgeist: palavra alemã que é traduzida como “espírito do tempo”, termo usado para representar como certos assuntos predominam de forma independente em diferentes grupos e regiões ao mesmo tempo, convergindo para ser o tema de determinada época.Esse zeitgeist, acredito, tem um pouco a ver com a forma como a realidade se apresenta no nosso momento atual. Em alguns dias sinto que estamos ao mesmo tempo no limiar de um salto tecnológico que vai nos colocar de vez numa época até então apenas imaginada pela ficção científica, e também à beira de um precipício distópico em que muitas das tecnologias disponíveis pioram a nossa vida ao invés de melhorá-la. (Sim, estou olhando pra você, IA roubando emprego de artistas ao invés de vir aqui em casa lavar uma louça.) E justamente quando estamos nesse ponto estranho do avanço tecnológico, temos também uma onda forte anti-ciência e, na verdade, anti-conhecimento. Entre as loucuras dos terraplanistas e antivaxxers e a falaciosa facilidade do chatgepetelson, estamos entrando num buraco de minhoca chamado: as pessoas não sabem mais das coisas. Não compreendem mais como alguns processos naturais básicos funcionam mesmo que tenham sido ensinados na escola. Não conseguem diferenciar registros naturais reais de imagens falsas. Não têm mais nem a menor noção de como sequer desconfiar de um produto tecnológico. Para efeitos práticos, estamos sim perdendo a capacidade de diferenciar no nosso dia-a-dia tecnologia de magia.
Ao mesmo tempo, épocas como essa, desoladora e progressivamente pessimista, favorecem o encontro das pessoas com alguma forma de espiritualidade. A conexão com algo maior, supostamente mais verdadeiro e transcendental, pode vir de muitas formas. Religião, misticismo, meditação... macro e micro cultos que visam de alguma maneira compensar a realidade cheia de estímulos artificiais. Não vou entrar aqui no mérito da questão de como isso pode ser perigoso, de como abre portas para o culto a líderes charlatães e egocêntricos que estão fazendo o mundo queimar. Esse texto não é sobre isso. Só queria apontar como quanto mais temos dificuldade de lidar com o avanço tecnológico, mais temos a tendência de nos balancear com o oposto.
Particularmente, com todas as ressalvas sobre fanatismo e obscurantismo, acho que a vida de todo mundo pode se beneficiar de um pouco de magia. Mas o que é a magia hoje num mundo em que é possível perguntar “chatgepetelson, chatgepetelson meu, existe alguém mais bela do que eu?” e receber uma resposta ainda mais louca do que o fato da pessoa realmente contar com uma IA como se ela fosse a solução para todos os problemas da vida?
A vida imita a arte, a arte inspira a vida. É um grande ouroboros. Com esses limites borrados na própria realidade, não me surpreende que acadêmicos da área de escrita em fantasia estejam também se questionando sobre eles na ficção. Não é à toa que a primeira pergunta que fiz a todas as autoras foi justamente como elas separavam fantasia de ficção científica, sem contar as espadas e as naves.
Como fiz essa pergunta a todas elas, acho justo que eu também tente respondê-la. Já adianto que as respostas das minhas colegas foram todas muito melhores do que a minha, e adianto também que não estou me baseando em nenhum texto ou definição formalmente aceita. Para mim, o que difere os dois gêneros está na sensação que eu busco. Nas fantasias eu busco um lugar de pertencimento, nas ficções científicas eu busco as incertezas do estranhamento. Isso vale tanto para o que leio quanto para o que escrevo. E não é que fantasias não possam ser estranhas, ou que nesse caso o estranho se traduza obrigatoriamente em algo próximo do horror.
Em cenários fantásticos monstros estranhos se traduzem muitas vezes enquanto metáforas sobre a condição humana já vivida — como já dizia Mérida em “Valente”: as lendas e mitos são lições, contam verdades sobre nós e de onde viemos. Em contextos de histórias de ficção científica essas criaturas se transformam em alertas, avisos sobre o que estamos nos tornando agora e como podemos acabar.
Acho que isso poderia ser facilmente traduzido pela distinção mais comum de passado X futuro, mas para mim essa sensação se mantém mesmo quando temos fantasias urbanas contemporâneas e ficções científicas contemporâneas em que não teríamos um marcador cronológico tão óbvio. Usando a bibliografia da nossa padroeira patroa Úrsula Le Guin de exemplo: em O Feiticeiro de Terra-Mar eu encontro não apenas um espaço confortável e familiar (o lugar de aprendiz) como também a liberdade de considerar o que seria de mim com os mesmos poderes e escolhas, me questionar que sombra eu criaria; em a Curva do Sonho eu encontro um cenário muito inquietante em que o protagonista não tem controle algum sobre os acontecimentos e um final que eu não cogitava para a sequência de acontecimentos e que até hoje me desperta perguntas.
Também no mesmo viés de pertencimento/estranhamento, muito mais do que “entender nossas origens”, com o pertencimento na fantasia também quero dizer que nessas histórias espero encontrar espaço seguro para as muitas versões de nós mesmos que gostaríamos de ser, que já imaginamos secretamente. Da mesma forma, com estranhamento quero dizer que gostaria de descobrir possibilidades para ser que até me deparar com a história eu ainda não havia considerado. Essa é uma distinção bem sutil e muito pessoal, provavelmente não vale nada, o que é ótimo porque não estou propondo nenhuma definição acadêmica. Na arte eu me permito a total falta de rigor que eu não posso ter na pesquisa.
Então, seria esse pertencimento que atrai as mulheres para a fantasia enquanto o estranhamento as afasta da ficção científica? Talvez, mas infelizmente precisamos olhar para outro fator anterior ao das histórias em si: quem as escreve.
No texto que citei na edição passada, Andrew Liptak comenta que um dos motivos por trás do sucesso das romantasias (e aqui eu faço um adendo para todo tipo de romance), é que são histórias que tocam em questões relevantes para o público feminino — o que também pode ser lido como: tratam as mulheres como indivíduos que merecem dignidade e têm sua inteligência respeitada. Seria uma extrapolação muito exagerada dizer que histórias de ficção científica não tocam nessas questões. Mas, seria mesmo? Repare que ele comenta das romantasias, não fantasia como um todo. E a grande maioria das romantasias é escrita por mulheres (homens, se permitam escrever romantasias!).
Existem grandes autoras de fantasia e de ficção científica, sim. Mas, algo me diz que se mandarmos o IBGE fazer um censo nas autorias mais famosas, veríamos uma proporção bem desequilibrada de homens e mulheres em cada gênero. Numa abordagem nada científica, porém visualmente muito ilustrativa, se você entrar no site da Editora Aleph (que publica os grandes nomes do gênero) e olhar para os autores dos livros listados apenas na primeira página temos: treze autores homens (George Orwell, Arthur C. Clarke, Julian Voloj, John Scalzi, Dan Simmons, Arkadi e Boris Strugatski, Alan Dean Foster, Phillip K. Dick, Joe Abercrombie, Júlio Verne, Isaac Asimov e Paul Trynka), duas autoras mulheres (Úrsula Le Guin e Martha Wells) e uma autoria não-binária (Rivers Solomon). E não estou listando isso para culpar a editora Aleph porque essa desproporção não é culpa dela, e até onde eu sei no âmbito nacional a Aleph está ativamente buscando mulheres para publicar. Essa lista é apenas um reflexo do que motivou a existência desse projeto. Temos grandes autoras, mas são poucas.
O motivo de serem poucas é que me morde por dentro. Dizer que é culpa da misoginia pode até ser verdade, mas também é muito simplista. Principalmente porque temos um fenômeno curioso: muitas das autorias que escrevem nos dois gêneros são mulheres. Tolkien não é conhecido por sua grande contribuição para a ficção científica e Asimov não foi nenhum grande amigo dos elfos. Já Úrsula e Martha... Além delas, muitas das nossas autoras entrevistadas escrevem nos dois gêneros, estão com elas nessa encruzilhada especulativa demonstrando a amplitude que os caminhos criativos que uma escritora pode percorrer. Inclusive, algumas delas escrevem histórias híbridas.
Voltando para o tópico principal e para a minha total falta de rigor, gosto muito quando uma história pega essa minha distinção fajuta e a manda pelos ares me oferecendo as duas coisas num pacote só. Fico encantada quando as fronteiras entre os dois gêneros se tornam borradas (na ficção, não na realidade). As páginas são curtas demais para uma definição só.
Isso pode acontecer em subgêneros descaradamente misturados, como o steampunk: um cenário do passado com tecnologia avançada que parece ultrapassada e regularmente tem um elemento especulativo além da tecnologia. Um dos meus livros de lobisomem favoritos é (na minha humilde opinião) um steampunk. Em Alma temos uma Londres vitoriana onde humanos, vampiros e lobisomens convivem em sociedade, e todos estão sob ameaça de um cientista misterioso. Ainda no steampunk, você pode ficar à vontade para julgar meu gosto cinematográfico, mas A Liga Extraordinária era um dos meus filmes favoritos da vida quando eu era mais nova e se eu me deparar com ele na televisão vou parar pra assistir todas as vezes. Uma vampira, antiga amada do Conde Drácula, navegando a bordo do Náutilos com o Capitão Nemo? Pode contar comigo.
Eu também aceito a mistura de magia e tecnologia em outros subgêneros, obrigada. Porém Bruxa de Carol Chiovatto, por exemplo, é uma fantasia urbana que ousa em colocar a sociedade das bruxas escondida em outra cidade com um bom bocado de tecnologia avançada própria para o uso dos bruxos e telepatas. Em Pantera Negra a ancestralidade da cultura e dos mitos de Wakanda é perfeitamente fundida com a tecnologia. Em Star Wars a força... brincadeira, não vou entrar nessa celeuma, não agora. Em Doctor Who há diversos episódios em que não apenas a ciência é mais do que questionável, como também o contexto apresentado é cheio de uma sobrenaturalidade impossível de negar. Embora a série costume jogar tudo no colo do “eram aliens o tempo todo!”, temos a retratação de culturas alienígenas religiosas, temos profecias, temos deuses a serem aplacados e uma série de desfechos que o Doutor pode até ser capaz de descrever em termos científicos, mas não de explicar e desmistificar.
E, claro, há aquelas histórias que fogem da minha distinção. Em “A longa viagem a um pequeno planeta hostil” Becky Chambers escreve uma ficção científica muito acolhedora. O livro traz estranhamento, sim, mas também o pertencimento. É uma ficção científica com cheiro de fantasia, embora todos os sabores tecnológicos estejam lá muito bem demarcados. Do lado oposto, temos a saga Mistborn de Brandon Sanderson, que é uma fantasia que para mim tem gosto de ficção científica. Em ambos os casos suspeito que tenha mais a ver com as preferências e o estilo dos autores do que com o enredo em si. E isso nos leva de volta a pensar sobre quem escreve esses gêneros e o quanto são limitados pelas percepções e expectativas externas do que cada um teoricamente deveria escrever. Ou ler.
Acredito que há muitas formas de descrever os limites entre fantasia e ficção científica, e que certamente várias dessas formas estarão sob os mesmos guarda-chuvas mais comuns para explicá-los. E acredito também que não nos prendermos nesse olhar binário sobre os gêneros especulativos é muito libertador, os híbridos têm tanto a contar quanto as histórias decididamente dentro das famosas classificações de alta/baixa fantasia ou ficção científica dura/suave. Na prática, essas caixinhas tão fechadinhas em parte também são responsáveis por criar a percepção de que alguém não pertence ao gênero; quanto mais grifamos os limites e alargamos fronteiras, mais aceitamos a ideia de que determinadas histórias são apenas para homens e outras apenas para mulheres, e ainda outras apenas para pessoas que não se enquadram nessas duas identidades.
É claro que, para fins comerciais e acadêmicos, as definições e convenções de gênero sempre vão existir. Não estou propondo nos livrarmos delas, são muito úteis para uma série de coisas. Estou apenas sugerindo que essa demarcação tão forte de símbolos e temas acaba sendo também facilmente transferida para preconceitos sociais e se tornando a mesma ferramenta para barrar as pessoas na porta de entrada dos gêneros.
Jogando isso para exemplos extremos, chegamos no que acontece atualmente com a fantasia escrita por mulheres: praticamente todas estão sendo empurradas para o campo da romantasia apenas por terem sido escritas por mulheres, mesmo que não haja um arco romântico relevante. Por outra perspectiva, se uma ficção científica tem elementos considerados “femininos” ou feministas, imediatamente é rebaixada a uma prateleira inferior, deixa de ser “ficção científica de verdade” e se torna um “livro para mulheres”. Ou seja, quantos livros de ficção científica escritos por mulheres deixaram de ser grandes clássicos apenas por fugirem dos moldes? Cito aqui como exemplo o livro “Língua nativa” de Suzette Haden Elgin, publicado aqui no Brasil (veja só) pela editora Aleph. O livro é uma ficção científica descaradamente feminista que trata do poder da linguagem enquanto ferramenta de dominação e também revolução. O livro é o primeiro de uma série, a continuação ainda não foi publicada no Brasil, o que pode ou não ter a ver com a enxurrada de comentários misóginos e revoltados no instagram da editora reclamando que estava se tornando lacradora...
Acho impossível colocar tudo o que penso e sinto nesse único texto, por isso o Filhas de Úrsula é um projeto em várias partes. O que eu gostaria de deixar como reflexão principal desse primeiro episódio é que: existem as convenções de gênero (espadas, naves, magia, ciência) e existem os preconceitos com que lemos essas convenções (assunto de homem, assunto de mulher). Aparentemente, homens escrevem literatura universal e mulheres escrevem apenas para mulheres? Essa conta não fecha, fecha? E é engraçado porque quando voltamos para a listinha ali de cima, nenhuma das duas autoras que estão ali escrevem sobre temas “femininos”, mas são lidas por mulheres tanto quanto por homens. Quando nos voltamos para a fantasia, vemos que há uma penca de autores homens cujos livros são grandes paixões de leitoras mulheres, mas o inverso não se traduz.
Todas as definições do mundo se tornam irrelevantes se elas servem para afastar pessoas de um livro (seja homem, mulher ou não-binário). E talvez esteja aí também a origem e a relevância das histórias híbridas ou que desafiam definições, pessoais ou não: autores e leitores que simplesmente decidiram ignorar todo tipo de caixinha imposta pela sociedade, da forma que fosse.
Como diz a nossa entrevistada de hoje, esse hibridismo é, ou pode ser, muito mais natural do que aparenta a princípio. Quando entramos no território especulativo, será que precisamos de tantas regras para definir uma história e decidir se gostamos dela antes mesmo de ler? Acho que podemos todos, não apenas na escrita, fazer mais como a autora convidada da vez e nos perguntarmos mais “e se...”
Já falei demais por hoje. Então, como não pretendo esgotar o assunto em uma única edição do Filhas de Úrsula, deixo com vocês...
Entrevista Giu Murakami

Giu Yukari (縁) Murakami (村上) é autora nipo-brasileira de ficção. Paraense e neta de imigrantes japoneses, suas narrativas trazem aspectos identitários de sua vivência nortista brasileira e dos efeitos da imigração diaspórica em suas obras. Foi vencedora dos Prêmios Literários Fox-Empíreo (2017) e Uirapuru (2021). Possui textos publicados em inglês e japonês. Em 2023, seu conto “Nas bordas de quem eu sou” foi exposto no Museu do Amanhã (Sai-Fai à Brasileira) e em 2025 sua história "Pelas mãos de batchan" foi adaptada para o audiovisual pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar sob direção de Hugo Katsuo e Palm Gurgel.
1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, enquanto pessoa que escreve, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?
Tu disseste que seria fácil! Hahaha
Essa é uma pergunta que passei a me fazer só depois que comecei a escrever os dois gêneros. Para mim, sempre estavam associados. Como leitora, a fantasia me remete a misticismo, e à magia. Ficção científica me remete à ciência, ao “empírico especulativo” (eu sei, parece contraditório XD)
Se olharmos para trás, essa distinção é uma "briga" de anos, que remonta até mesmo aos gregos. Na Ilha de Creta, houve um famoso embate entre Medeia, uma feiticeira (portanto, uma figura associada à “Fantasia”) e Talos, um autômato criado pelo deus Hefesto (que, por sua vez, remete à “Ficção Científica”. O embate envolvia o uso de feitiçaria, persuasão sobre um ser robótico que não se sujeitava aos mesmos desejos e sensações humanas. Curiosamente, a “Fantasia venceu”, submetendo a “Ficção Científica” aos seus encantos.
Muitos dizem que fantasia é sobre “E se existisse tal coisa?” e ficção científica sobre “e se chegássemos a tal ponto?”, mas todos esses questionamentos nascem de um mesmo ponto que é o da especulação. Aqui reside o elemento em comum e o que diferencia um gênero e outro, para além do público-alvo, são as características que os movimentos literários listaram como canônicas de cada gênero: sci-fi com foco em tecnologia, futuro (ou retrofuturo) e ciência, a fantasia com foco em elementos sobrenaturais e mágicos, o horror como explorador do medo e do sobrenatural sombrio...
No fundo, me parecem convergir a partir do mesmo ponto. A especulação do “E se...”, para mim, importa mais do que as características típicas de cada gênero. Caso eu queira explorar um mundo steampunk com fadas desaparecidas, minha preocupação maior é se o meu “E se...” está verossímil, palpável para aquele mundo que criei e para o leitor. Às vezes, a classificação vem muito depois e não posso deixar de notar que é um movimento comum da ciência: o cartesianismo que ultrapassa a Academia também se expande para outras áreas do conhecimento como a arte.
Então, resumindo (ficou muito longa a resposta!!): eu como autora gosto de partir apenas da especulação, sem distinções entre os gêneros. Como leitora (e “Autora-que -precisa-publicar-e-vender”) os gêneros se distinguem por três premissas:
a) Características típicas: magia x tecnologia, misticismo x empirismo...
b) Público-alvo: o pós-publicação diz muito para mim. Está na sessão de fantasia ou ficção científica da livraria? Os leitores que postam suas resenhas classificam como aquela obra?
c) Perguntas especulativas distintas: “E se o mundo fosse habitado por dragões?”, “E se o futuro se desenvolvesse com a tecnologia a vapor?”
2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?
Acredito que eu enquanto autora esteja no meio do caminho. O ponto de partida é sempre o “E se...” quando escrevo ficção especulativa.
No ínterim disso tudo, o que mais me importa são as relações e conexões humanas. E quando me refiro a “humanas”, parto do princípio de abordar as emoções humanas ainda que em outros seres como dragões, robôs, encantados etc.
3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?
Como minha premissa é sempre as relações e conexões, as histórias que mais me impactaram giraram em torno desse despertar de sensações tipicamente humanas mesmo em criaturas e seres tão distintos de nós.
Posso facilmente mencionar seu conto, Cephalopod Heart. A primeira versão que li foi publicada pela Hexagon e lembro do que me marcou: a conexão entre a protagonista e a criatura que tinha uma forma de comunicação emocional diferente da nossa. Ainda assim, a protagonista o escolheu, não pelas diferenças, mas pelas semelhanças entre eles: uma conexão que ia além da espécie.
Nesse mesmo barco de autores de sci-fi que privilegiam as relações entre personagens mais do que qualquer outra coisa está o Ted Chiang. Seus contos em “História da sua vida e outros contos” carregam cargas emocionais, traumas, cultura, pertencimento e identidade em meio a vários cenários especulativos.
A Becky Chambers explora com muito humor e reflexão as relações e conexões entre personagens durante várias viagens espaciais a mundos distintos. E a Octavia Butler trabalha esses elementos com foco nos temas sobre poder, racismo, gênero e opressão, temas que ditam as escolhas dos personagens.
São exemplos de que gosto muito e que lembro agora com carinho. Tenho uma lista de indicações também e sempre que posso comento em escolas.
4) Muitas das suas histórias como “A Aprendiz de Erveira” e “As formidáveis Gomes e Doyle” brincam com os limites entre ficção científica e fantasia. Como você dosa essa mistura pra cada história e o quanto você acha que isso é uma marca do seu estilo literário?
Não costumo segregar os gêneros de maneira consciente. Só me dei conta de que poderia ser um estilo quando leitores meus apontaram que os mundos apresentados para eles pareciam carregar elementos comuns dos dois gêneros. Algumas histórias apresentam características mais predominantes do que o outro gênero. Coincidentemente, as histórias que mencionaste são as que apresentam linhas muito limítrofes entre fantasia e ficção científica. Em “Formidáveis Gomes & Doyle”, o steampunk é parte da rotina assim como cyeberpunk amazofuturista é ambientação completa de “Aprendiz de Erveira”, e em nenhum deles consigo reduzir a carga de magia e criaturas fantásticas nas histórias porque estão intrinsecamente ligadas à construção do mundo.
Em compensação, outras histórias são mais facilmente distinguíveis, inclusive meu próximo vem aí... hehe
Enquanto autora não consigo dissociar a fantasia da ficção científica na maior parte das vezes, mas isso tudo é culpa da Fantasia. Realmente não me recordo de nenhum dos meus textos ser puramente do gênero de sci-fi. Acredito que essa tendência se manifeste principalmente pela minha vivência. Há uma frase popular sobre nortistas: “Não há ateu no Norte”. Desde muito pequenos escutamos contos míticos, lendas urbanas e histórias de visagem. A gente está sempre muito conectado à floresta e aos rios, que possuem uma carga cultural forte. Quando eu era criança acreditava que uma serpente colossal emergiria do solo de Belém caso não houvesse Círio de Nazaré. Acreditava mais na Cobra Grande do que no Papai Noel.
Meu pequeno desabafo sobre esses hibridismos literários (termo que carinhosamente estou emprestando do Festival Relampeio) é que a construção de mundo é trabalhosa. Como normalizar que não tenho tecnologia suficiente em um mundo cyberpunk para teletransporte sendo que tenho chaves de portal mágicas para me transportar? Essa é uma de muitas contradições que podem surgir desses mundos híbridos. Dá um trabalho consertar essas lacunas depois...
5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?
Tenho duas respostas hahaha
Minha região sempre está presente. A Amazônia influencia muito minha ambientação. Existe em mim um orgulho intrínseco da nossa riqueza cultural, mas uma preocupação e frustração constantes sobre como seria nosso futuro...
Minha outra resposta remete ao fato de que sou descendente de imigrantes. Pode parecer que não influencia, mas notei que sim, faz muito sentido com os cenários de ficção científica que crio: quase todos envolvem pessoas que não se encaixam, que buscam seu pertencimento ou que submetem sua própria identidade à inevitabilidade do capitalismo e da tirania.
Então se hoje eu escrevesse uma história de ficção científica, o tema possivelmente seria sobre como reconquistar a própria identidade em um cenário de degradação social e ambiental... um pouco pessimista, mas um dia, espero, talvez consiga escrever com esperança sobre o futuro.
6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?
Considero que já estivemos em uma situação de maior invisibilidade na ficção científica. Houve um tempo em que era difícil para o público-alvo do sci-fi clássico a percepção de que mulheres também pensavam o futuro... nem sempre tão favorável a quem estava acostumado a ler esse gênero.
Mas notei também que houve um aumento de buscas do gênero por leitoras mulheres e, por consequência, tendemos a ter mais visibilidade enquanto autoras porque elas nos leem também, afinal, se sentem representadas.
Na Fantasia vejo um movimento diferente, inclusive em eventos. Há muito mais espaço para se falar do gênero a partir de uma ótica de autoria feminina (ou fora do eixo masculino-branco-hétero).
Acredito que ainda tenhamos bastante estrada para a ficção científica produzida por mulheres, mas estamos em um bom caminho.
7) Em “Aprendiz de Erveira” você cria um cenário que traz muito do Pará e da Amazônia, e fala de redescobrir a magia. Você enxerga que histórias que imaginam o futuro preservando conhecimentos tradicionais são uma forma também de ajudar a preservar essas tradições na realidade?
Sem dúvida. Acredito que histórias que imaginam o futuro preservando conhecimentos tradicionais são uma forma poderosíssima de resistência cultural e, sim, de preservação na realidade.
Já estamos vivendo um “hibridismo” dos gêneros na vida real. No Pará, assim como em outros locais, imagino, há uma rica tradição de brinquedos feitos de miriti, tradições orais sobre o poder de cura dos banhos de cheiro, o fazimento das comidas tão marcantes, mas esses aspectos culturais têm sido ofuscados pela tecnologia.
É também uma oportunidade de descolonizar a percepção de que o futuro não precisa estar nas mãos somente de laboratórios ultrapotentes, mas também das florestas e das tradições culturais.
Não acredito que a tecnologia seja uma vilã, mas quando estamos submersos ao que algoritmos nos entregam acabamos perdendo muito dos conhecimentos tradicionais que nos fazem tão únicos.
8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?
Notei que minha proximidade com a ficção científica veio de dois vetores: a) uma idealização de que a Amazônia é o pulmão do mundo (a maior fake news científica que você já viu) e como pessoa que foi criada neste ambiente não podia deixar de especular o que seria da minha região no futuro; e b) super-heróis.
O “b” parece bem idiota, eu sei hahaha. Mas os blockbusters me influenciaram a gostar de ficção científica, mesmo que muito do que reproduzissem envolvesse uma dose de fantasia também.
Daí foi ladeira abaixo. Fui conhecendo subgêneros de ficção científica e me apaixonando por alguns. Tenho especial apreço pelo steampunk porque nunca mais vi minha cidade, Belém do Grão-Pará, sem uma estética de tecnologia a vapor considerando que foi uma representação da Belle Époque no Brasil.
9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?
O problema não está nas leitoras, claro, mas na forma como o gênero foi vendido e representado por muito tempo. Por décadas, o marketing se concentrou em naves espaciais, explosões e conceitos de física (space opera), apelando ao estereótipo do leitor focado em “coisas nerds” que eram difundidas nas décadas de 70 e 80 como tipicamente masculinas. As capas, inclusive, ignoravam as personagens femininas ou as retratavam de forma sexualizada ou passiva.
A palavra “ciência” também carrega uma carga histórica por estar atrelada à alta tecnologia, conceitos de física, engenharia especial... profissões muitas das vezes associadas a homens por décadas.
Acredito que esses foram fatores determinantes para que o gênero de ficção científica fosse menos atrativo para o público feminino.
Ainda assim, acredito que estamos mudando isso aos poucos. Seria ótimo uma máquina de aceleração do tempo para que pudéssemos ver o fruto dos nossos esforços hahaha.
10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?
Eu sabia que teria uma pergunta assim! Hahaha
Entendo que Star Wars carrega a estética da Ficção Científica espacial (Space Opera), mas opera o enredo com Fantasia pura. Ninguém me convence de que a Força não é um sistema de magia.
Fãs de Ficção Científica adoram criar classificações, então, podemos encaixá-lo em um subgênero que seria uma “Fantasia Espacial” que tem características tecnomágicas em um mundo altamente tecnológico.
Câmbio, desligo.
Obrigada por ter chegado até aqui! Se você ainda não está com vontade de jogar essa newsletter na parede, saiba que na próxima semana teremos a participação de uma autora conhecida por amar criaturas esquisitas. Dica: foi finalista do prêmio Jabuti. Espero que continue acompanhando a jornada das Filhas de Úrsula.
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