Filhas de Úrsula #1

encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Uma breve introdução

Com essa edição estou inaugurando uma sessão especial da minha newsletter Luas e Marés. É com muita felicidade e uma boa dose de receio que apresento a vocês o meu mais novo projetinho do coração. Não é um projeto que estou escrevendo, e sim um projeto sobre escrever. Especificamente, sobre mulheres que habitam dois dos maiores gêneros literários da ficção especulativa: a fantasia e a ficção científica.

Em “Filhas de Úrsula” eu pretendo trazer algumas reflexões pessoais enquanto escritora e leitora de ambos os gêneros, e também promover um diálogo com outras escritoras brasileiras contemporâneas que também escrevem nesses espaços. O nome é uma homenagem à escritora Úrsula Le Guin, que escreveu grandes clássicos de fantasia e de ficção científica com livros relevantes até os dias de hoje. Então, nas edições de Luas e Marés que vierem com o assunto “Filhas de Úrsula” você vai receber um textinho meu, e também uma entrevista que fiz com uma autora para saber o que ela pensa sobre algumas questões que vêm me mordendo por dentro.

Procurei a visão de autoras de diferentes regiões e caminhos da escrita e da vida, tentando gerar uma conversa diversa. A maioria das perguntas são iguais para todas, mas algumas são específicas para que saibamos mais sobre cada uma. Se ao final de tudo o maior resultado tiver sido apresentar para você uma autora nova, já vou considerar o projeto um sucesso.

Na verdade, não tenho um grande objetivo com isso a não ser talvez pensar em voz alta e quem sabe fazer brotar pensamentos em quem estiver lendo. Enquanto autora, muito me interessa pensar sobre o espaço que ocupo e como minhas colegas enxergam e habitam esse mesmo ecossistema, e espero que sejamos uma comunidade cada vez mais forte e harmônica.

Imagem retangular de fundo abstrato que remete ao espaço e ao fundo do mar, em tons de azul e pontos brilhantes. Um símbolo de infinito contento um dragão e um foguete está ao lado do título "Filhas de Úrsula" e abaixo há o texto "encruzilhadas de escritoras nos caminhos da ficção especulativa

Onde estão as “filhas de Úrsula”? O que comem e como vivem?

O estopim desse projeto foi um texto de Andrew Liptak, escritor e historiador, que recebi num grupo de amigos escritores. O texto está em inglês, e você pode ler na íntegra aqui, mas em resumo ele trata de como a romantasia foi a grande responsável por tornar 2025 o maior ano de vendas de ficção especulativa. Vou deixar você pensar sobre isso por um minuto, e eu recomendo muito que leia o texto porque levanta ótimos pontos, mas não pretendo discuti-lo inteiro nesse momento (embora uma parte de mim esteja sempre pronta para defender a romantasia dos “detratores, dos cretinos e hipócritas, que nada sabem” (quem pegou essa referência, pegou!)).

Vou copiar aqui, no original e numa tradução livre minha, apenas os parágrafos que me interessam para começar essa grande conversa entre eu, minhas colegas, e vocês:

“I have a feeling that as a genre, science fiction still has a lingering perception as being a male-dominated thing (especially if the authors that are reflexively recommended go by the names of Asimov, Clarke, Heinlein, and Herbert) and where women are often relegated to characters that are secondary to their male counterparts. Or maybe there's still the social stigma of being labeled a nerd if you've got a science fiction novel, or something in how the genre is broadly marketed. Or maybe it's the fact that we're living in a world where Elon Musk is the closest thing we have to a character from one of those stories and we don't like what we see.

That SF is a boys-only thing not accurate: there are legions of outstanding authors who've specifically worked against that image, and science fiction has never been exclusively a boy's club: women have been part of it since the start. But perceptions can be hard to change once they're embedded in our cultural consciousness.

From a publishing perspective, being the smallest part of the whole strikes me as a good starting point: you know there's a wide body of readers who're willing to propel the genre to these heights. If you can find the right authors and stories (easier said than done), you have the start to a path. There's no shortage of inspiration on that front: rocket launches are routine at this point, NASA's getting ready to land on the Moon at some point in the next decade (maybe?), we've got cool space missions headed to Mars and Europa, not to mention a lot of exciting work in climate science, medicine, technology, and so forth.

But I suspect that there's a lot of cultural and social baggage that still needs to be overcome: the specific cultural infrastructure and community that produces science fiction isn't telling the stories that these readers are looking for, which harkens back to what Roberts mentioned: not centering, depicting, or including the characters, situations, and stories that are supportive of women's interests. There's nothing in science fiction that's inherently hostile to this: look no further than Mary Robinette Kowal's Lady Astronauts series, which did a fine job telling a story rooted in actual science, but which also centered the concerns her female characters – concerns that are absolutely present in the real world.”

 

“Tenho a impressão de que, como gênero, a ficção científica ainda carrega a percepção de ser algo dominado por homens (especialmente se os autores que são automaticamente recomendados forem Asimov, Clarke, Heinlein e Herbert) e onde as mulheres são frequentemente relegadas a personagens secundárias em relação aos seus pares masculinos. Ou talvez ainda exista o estigma social de ser rotulado como nerd se você lê um romance de ficção científica, ou algo relacionado à forma como o gênero é amplamente comercializado. Ou talvez seja o fato de vivermos em um mundo onde Elon Musk é o mais próximo que temos de um personagem de uma dessas histórias e não gostamos do que vemos.

Essa ideia de que a ficção científica é coisa só de meninos não é exata: existem legiões de autores excepcionais que trabalharam especificamente contra essa imagem, e a ficção científica nunca foi exclusivamente um clube do bolinha: as mulheres fazem parte dela desde o início. Mas percepções podem ser difíceis de mudar depois de estarem enraizadas em nossa consciência cultural.

Do ponto de vista editorial, ser a menor parte do todo me parece um bom ponto de partida: você sabe que existe um grande número de leitores disposto a impulsionar o gênero a esses patamares. Se você conseguir encontrar os autores e as histórias certas (mais fácil falar do que fazer), terá o início de um caminho. Não faltam inspirações nesse sentido: lançamentos de foguetes são rotina hoje em dia, a NASA está se preparando para pousar na Lua em algum momento da próxima década (talvez?), temos missões espaciais incríveis rumo a Marte e Europa, sem mencionar o trabalho empolgante em ciência climática, medicina, tecnologia e assim por diante.

Mas suspeito que ainda haja muita bagagem cultural e social a ser superada: a infraestrutura cultural e a comunidade específicas que produzem ficção científica não estão contando as histórias que esses leitores procuram, o que remete ao que Roberts mencionou: não centralizar, retratar ou incluir os personagens, situações e histórias que apoiam os interesses das mulheres. Não há nada na ficção científica que seja inerentemente hostil a isso: basta ver a série Lady Astronauts de Mary Robinette Kowal, que fez um excelente trabalho ao contar uma história baseada na ciência real, mas que também centrou as preocupações de suas personagens femininas – preocupações que estão absolutamente presentes no mundo real.”

 

Andrew Liptak

Achei esse trecho muito interessante porque ele logo de cara traz duas questões: 1) a percepção de que a ficção científica é um terreno majoritariamente masculino e 2) a realidade não corresponde a essa percepção se você souber procurar livros para além dos clássicos. Dito isso, eu fiquei muito tempo pensando sobre isso e me perguntando o que outras mulheres pensavam sobre isso.

Embora eu seja mais conhecida por Garras, que está firmemente dentro das categorias ‘romance’ e ‘fantasia’, minha primeira publicação na vida foi Marea Infinitus, uma ficção científica sem nada de romance. Tenho vários contos de ficção científica, na verdade. Eu sou cientista tanto quanto sou escritora, tanto quanto sou tantas outras coisas, e tudo isso se reflete na arte que eu crio. Não pretendo discutir na edição de hoje as questões mercadológicas de ser uma escritora que publica em ambos os gêneros, por hora me basta apontar que eu não sou a única. Além da nossa homenageada Úrsula, há várias de nós que escrevem em múltiplos gêneros, inclusive saindo do âmbito especulativo. No Brasil e no mundo as mulheres escrevem sobre o que querem, isso é verdade desde Mary Shelley e seu Frankenstein.

Dito isso, a forma como nossas histórias são recebidas e lidas não está sob nosso controle. Em diversos gêneros fenômenos curiosos acontecem: a reclassificação de uma história apenas por ter sido escrita por uma mulher. Fantasia de autoria feminina? Romantasia. Ou então, só pode ser uma história Young Adult, para jovens. Ficção científica com romance? Então é com certeza um “livro para mulheres”, porque Deus livre os homens de histórias românticas..... como se Star Wars não fosse uma saga movida ao romance... Então, sim, acho muito válido nos perguntarmos se a ficção científica é um espaço majoritariamente masculino, se as mulheres foram barradas na porta da Millenium Falcon. Nem que seja para descobrirmos como mudar essa percepção.

Também existe uma outra forma de encarar a questão: ao invés de ser uma exclusão (ou seja, os homens excluem as mulheres desse espaço), as mulheres, em maioria, teriam uma preferência por fantasia? Se sim, quais as razões por trás disso? Fatores sociais? O cruzamento de contexto social, racial? Aleatoriedades da vida? Talvez, trazendo essa reflexão para solo brasileiro precisemos antes nos perguntar algo anterior que é: teria o brasileiro preconceito com a ficção científica nacional numa variação da famosa síndrome de vira-lata?

Não sou pesquisadora da área, não pretendo trazer respostas definitivas ou produzir aqui uma tese de doutorado (já fiz uma dessas, tenho muito orgulho dela, mas não pretendo repetir), mas tenho muito interesse pelo que minhas colegas autoras têm a dizer. Quero conhecer cada vez mais delas, e quero que elas sejam conhecidas também. Quero que, ao falar de ficção científica e fantasia, lembremos de nomes além de Úrsula Le Guin e Martha Wells.

Então, por hoje, vou apenas trazer essas perguntas e vontades, e deixar vocês com a nossa primeira entrevistada. Ela, a passeadora de lobisomens. Ela, que será uma das primeiras escritoras nacionais a ser publicada pela Editora Aleph. Ela, que além de escritora é também tradutora e editora e fez muito pela profissionalização de tantos jovens escritores brasileiros. Sem mais demoras, com vocês...

Entrevista Jana Bianchi

Jana é uma mulher branca de cabelos pretos ondulados, curtoss. Tem corpoo gordo e está num cenário urbano, sorrindo para a câmera enqunto se apoia no parapeito de um viaduto.

Jana Bianchi é escritora, editora e tradutora. Tem histórias publicadas em português e em inglês em revistas e antologias como Trasgo, Dragão Brasil, Suprassuma, Uncanny, Fireside, Clarkesworld e Imagine 2200, entre outras. É vencedora do prêmio BSFA de melhor conto traduzido de 2023. Junto com o companheiro Diogo Ramos, criou e atua no projeto Fantástico Guia, um compilado de iniciativas com o objetivo de fomentar uma comunidade criativa e facilitar a navegação de leitores, autores e profissionais pelos mercados editoriais brasileiro e anglófono. Jana vive teleportando entre o interior de São Paulo e o Rio de Janeiro, onde vive com humanos, cachorros e suas várias tatuagens animadas. Mais em: janabianchi.com.br e fantasticoguia.com.br

1) Vou começar essa entrevista com uma fácil. Pra você, enquanto pessoa que escreve, o que difere a fantasia e a ficção científica para além das espadas e máquinas?

Uma coisa importante que aprendi ao longo dos meus anos no mundo da literatura é que definir e delimitar gêneros literários não é uma ciência exata, e gostei da pergunta justamente porque ela começa com "pra você" — sou da filosofia de que o interessante é cada um criar sua própria lógica interna sempre que não houver respostas absolutas, como neste caso. Então, pra mim, o que difere a fantasia da ficção científica é o status do elemento especulativo dentro do universo da história. Se ele é baseado na ciência do mundo onde aquela história acontece, mesmo que seja uma ciência fictícia, implausível ou mesmo incorreta segundo os conhecimentos que temos do mundo real, considero a história ficção científica. Já se o elemento especulativo é baseado em magia ou ao menos algum grau de misticismo, considero fantasia (e, dentro da fantasia, se o elemento fantástico é completamente inexplicado e/ou nonsense e considerado mundano mesmo sendo extraordinário, classifico a história como realismo mágico). Sob essa lógica, por exemplo, Frankenstein — que é protagonizado por um cientista e sua criatura, e explora a fundo princípios científicos do fim do século XVIII e começo do XIX, como o galvanismo, assim como a filosofia — é ficção científica, embora segundo a ciência atual o plot seja algo totalmente fantasioso e incoerente em termos técnicos.

 

2) Quais desses elementos te aproximam mais de um gênero do que de outro? Ou você acha que está no meio do caminho?

Nossa, acho que estou muito no meio do caminho — e até por isso curto histórias que flertam com a zona intermediária entre os gêneros. Mais do que gostar mais de fantasia ou ficção científica, o que me conquista são obras cujos autores escolheram a abordagem do elemento especulativo que melhor atende à história que quiseram contar. Por exemplo: Parque dos Dinossauros poderia funcionar como uma fantasia em que magos modernos têm o poder de trazer dinossauros de volta à vida? Acho que poderia, sim. Mas, na minha opinião, toda a discussão sobre os perigos de "brincar de Deus" que a história suscita, principalmente através dos questionamentos do matemático dr. Ian Malcolm, fica muito mais forte se o elemento especulativo vem na forma de um multimilionário que tem a ideia de jerico — embora seja uma ideia de jerico muito interessante, confesso — de fazer um parque de diversões cheio de máquinas mortíferas pré-históricas e caóticas reconstituídas através do DNA conservado num mosquitinho preso no âmbar. Essa escolha ganha ainda mais força se a gente considerar que o livro saiu no início da década de 1990, quando a ciência flertava FORTE com ideias consideradas futurísticas e até heréticas; para contextualização, o primeiro "bebê de proveta" (o que hoje chamamos de fertilização in vitro) nasceu em 1979, e a ovelha Dolly foi clonada em 1996; ou seja, a sociedade como um todo estava muito interessada nos limites da ciência e em suas implicações éticas e sociais.

 

3) Não posso deixar de perguntar se você tem e quais são as suas histórias de ficção científica favoritas?

Tenho sim, muitas! Começando pelo já supracitado clássico Parque dos Dinossauros (Michael Crichton), uma dos primeiros livros do gênero que li na vida, ainda criança; me deixou fascinada para sempre por ficções científicas que se passam na Terra, no presente ou num futuro muito próximo, propondo tecnologias bem similares às que já temos. Para o lado mais hard e clássico, gosto da série Duna, do Frank Herbert, minha primeira experiência de "livro de segunda chance" (hahahaha) — comecei a ler e abandonei o primeiro volume da série em três momentos diferentes da vida, até enfim engrenar e ficar viciada no universo. Como sou muito eclética no quesito subgêneros, também tenho que citar A mão esquerda da escuridão (Ursula K. LeGuin), O conto da aia (Margaret Atwood) e Língua nativa (Suzette Haden Elgin, livro que traduzi para a editora Aleph) como três favoritos focados em ciências humanas e políticas, todos com viés feminista. Em termos de histórias que se passam no espaço, meus dois queridinhos têm muitas similaridades no que tange a construção de personagens complexas, mas não poderiam ser mais diferentes: sou igualmente apaixonada pela saga Wayfarers, da Becky Chambers, e pela série A expansão, de James S. A. Corey — sendo que a primeira é um pouco mais solta do rigor científico (embora tenha uma coerência interna invejável que, para mim, a classifica como hard, e brinque muito bem com possíveis formas de organização social alternativas) e a segunda é toda fundamentada na física newtoniana dura (embora se permita umas viagens malucas em termos de idealização de outras formas de vida). Por fim, vou ousar aqui e colocar como favorito um livro que estou lendo neste momento, então ainda nem terminei: Embassytown (até onde sei, nunca publicado no Brasil), do China Miéville. Eu o classificaria como uma ficção científica weird, se é que isso faz sentido, com muito foco em desenvolvimento e aquisição de línguas. Já estou completamente apaixonada tanto pelo conceito quanto pelas ousadia na construção de um universo todo focado na estranheza.

 

4) Você é uma autora que transita muito entre gêneros literários especulativos. Como escolhe quais temas escrever em quais gêneros?

Acabei respondendo um pouco sobre isso na pergunta 2 sem querer: acho que o gênero literário é uma ferramenta incrível na hora de fortalecer e aprofundar as discussões que quero levantar ou os conceitos que desejo explorar numa determinada história. Em muitas ocasiões, tenho ideias macro que nascem sem gênero literário; é só quando chega a hora de detalhar o que quero desenvolver com base nela que decido se consigo abordar melhor o assunto usando um elemento especulativo essencialmente científico ou mágico. Em outros casos, a história já me vem com uma "atmosfera" determinada — nesse caso, confio no meu próprio inconsciente, imaginando que ele já me trouxe a abordagem mais interessante pra alguma ideia que anda perambulando pela minha mente.

 

5) Se você fosse escrever uma ficção científica HOJE, o que do seu entorno ou da sua história provavelmente influenciaria a escrita e o tema?

Acho que minhas histórias de ficção científica são mais influenciadas pelo zeitgeist do que as de fantasia, embora todas tragam um pouquinho do que tá rolando no mundo. Então, hoje, imagino que toda ideia de FC que eu for explorar vai ter — em alguma medida, mesmo que bem lá no fundo — discussões sobre singularidade (impossível não pensar no que diferencia humanos de máquinas com a inteligência artificial torando por aí), crises climáticas (moro no Rio de Janeiro, afinal) e insegurança política e ascensão da extrema-direita (*aponta o entorno*). Em termos mais pessoais, é na ficção científica que eu costumo me sentir mais à vontade para falar de questões mais filosóficas que ocupam minha mente, como a relação da sociedade com a velhice, o significado da morte e as implicações pessoais e sociais de ser uma pessoa que provavelmente não vai ter filhos; com certeza um pouco de um desses tópicos também influenciaria novas FCs escritas por mim neste momento.

 

6) Sendo uma pessoa que se identifica como mulher, você tem a percepção de que a ficção científica aparenta ser mais receptiva a autores homens e que na fantasia isso já é menos difundido?

Sim, acho que a ficção científica ainda afasta — de diferentes formas e em diversas instâncias — escritoras e leitoras mulheres ou pessoas não-binárias. É uma doideira, considerando que grandes clássicos do gênero (inclusive o já citado Frankenstein, um dos precursores do gênero, que foi escrito por Mary Shelley quando ela tinha só 17 anos) e vários títulos contemporâneos de sucesso (como a série Robô assassino, de Martha Wells) foram escritos por mulheres, mas é real. Claro que, por trás disso, está a forma como a sociedade ainda considera masculino tudo que é ligado à ciência, em especial no caso das ciências duras ou exatas. Tem outras questões já mais focadas na literatura que influenciam nessa receptividade dependente de gênero, como a associação exclusiva da literatura de romance ao público feminino — e daria pra fazer toda uma outra entrevista só sobre isso. Mas, tentando ver as coisas pelo lado bom, sinto que estamos conquistando mais e mais território dentro do gênero. Vejo mais mulheres lendo, comentando e escrevendo ficção científica de ótima qualidade, e sinto que é só o começo de uma ascendente.

 

7) Sendo uma autora também atuante no mercado anglófono de revistas de ficção, você tem experiência com diversos formatos de histórias. Você acha que a ficção científica é mais facilmente contada e recebida através de formatos específicos? E acredita que isso pode variar culturalmente entre os mercados de cada país?

Essa é uma ótima pergunta, e não sei se tenho uma resposta hahaha... Meu primeiro impulso é dizer que sim, que a ficção científica é um gênero que muito se beneficia do formato da ficção curta (inclusive, só para complementar a pergunta anterior, tenho a impressão de que há mais mulheres ou pessoas não-binárias escrevendo contos de ficção científica do que romances ou histórias mais longas do gênero). Mas talvez esse viés seja mais relacionado ao formato do mercado anglófono num geral, que dá muito valor à ficção curta, assim como ao histórico de revistas clássicas que publicam contos e noveletas de FC desde a década 1920 (!). De modo geral, porém, gosto da ideia de explorar ideias do gênero em formato mais reduzido porque sinto que favorece a experimentação — é muito mais fácil ousar e criar universos com regras complexas sabendo que você precisa sustentar "só" cinco mil palavras de história, e não cem mil.

 

8) Você acha que algo da sua criação e contexto social influenciou no seu atual estado de intimidade com a ficção científica?

Com certeza! Fui uma criança extremamente privilegiada em muitos âmbitos, em especial no da educação. Embora minha família seja originalmente de classe média-baixa e eu tenha tido uma infância humilde em termos financeiros, meus pais sempre priorizaram meu acesso a boas escolas e à cultura — em particular, aos livros e às histórias em quadrinhos, que eles sempre amaram. Meus tios e primos também sempre curtiram ler. Nesse contexto de criança que foi criada em lares cheios de livros, eu tinha acesso ao que meus familiares gostavam: majoritariamente fantasia, ficção científica e horror. Mencionei anteriormente que Parque dos dinossauros foi uma das minhas primeiras leituras do gênero, e isso aconteceu porque meu pai tinha um exemplar que deixou ao meu alcance. Foi explorando a "biblioteca" dele (entre aspas porque era apenas uma estante cheia de livros que só eu via como tesouros) que também acabei lendo, bem novinha, romances e coletâneas de contos do Isaac Asimov, assim como clássicos como A máquina do tempo e A revolução dos bichos. Isso sem falar no cinema; como amantes do gênero, meus pais e tios sempre organizavam sessões em que a gente reunia a família e alugava dezenas de fitas cassete (denunciando a idade de criança que viveu a infância nas décadas de 1990 e 2000) de títulos de ficção científica como Star Wars (mais sobre isso na última pergunta hahaha), Stargate, O Quinto Elemento, Matrix, O Exterminador do Futuro, Parque dos Dinossauros e tantos outros.

 

9) O que você acredita que são os fatores responsáveis pela percepção geral de que a ficção científica não é um gênero atrativo para leitoras mulheres? Ou você discorda dessa afirmação?

Falei um pouco sobre isso na pergunta 6, mas tenho mais um pensamento para acrescentar: acho que a autocobrança exarcebada das mulheres faz com que muitas leitoras nem se deem a oportunidade de conhecer mais do gênero com medo de não entender histórias que são divulgadas como "difíceis". Além da generalização ser uma falácia — Robô assassino, por exemplo, é uma FC que tende ao hard, e não poderia ser uma leitura mais fácil e agradável —, acho que nós, mulheres, projetamos nosso medo de falhar até mesmo na leitura, algo que deveria ser apenas prazeroso. Eu mesma já tive experiências com FC áridas (oi, Neuromancer, estou olhando para você); como já era acostumada com o gênero, porém, só entendi que aquele livro não era para mim, encontrei outras pessoas e resenhas com opiniões similares e segui o baile. Acredito que muitos homens têm tanta ou mais dificuldade do que mulheres para ler certas ficções científicas, mas nem passa pela cabeça deles a sensação de fracasso ou insuficiência que já perturba as mulheres por padrão. Assim, imagino que seja mais fácil para homens se permitirem explorar o gênero de coração aberto.

 

10) Estamos chegando no fim, então uma polêmica: Star Wars é ficção científica ou fantasia?

Amei muito a pergunta, e acho que acabei já respondendo ao longo do resto da entrevista! Pra mim, Star Wars é ficção científica porque os elementos especulativos da história são todos fundamentados numa ciência relativamente coerente que permeia o universo. "Ah, mas os midichlorians são só uma desculpa para 'cientificar' a magia dos Jedi"... Minha amiga, tem tanta coisa real, explicada pela ciência atual, que parece mais fantástico que midichlorians que tenho um armário só de panos para para passar para Star Wars. "Ah, mas o som não se propaga no espaço"... Isaac Asimov escreveu histórias em que naves POUSAVAM nos anéis de Saturno e ninguém nunca chamou as obras dele de fantasia. "Ah, mas as formas de vida alienígena são totalmente humanizadas..." Amiga, se eu considero que Firefly é ficção científica, como Star Wars não seria? (Inclusive, recomendo demais assistir esse maravilhoso e brega sertanejo espacial que tem um espaço muito querido no meu coração, embora não tenha tido o fim que merecia.) Brincadeiras à parte, é claro que entendo quem considera a saga de SW uma fantasia — acho até que essa dúvida (que é tão polêmica quanto o que "Quem atirou primeiro?") só deixa ainda mais charmoso esse universo que tanto amo.

Câmbio, desligo.

Obrigada por ter lido até o final da primeira parte desse projetinho. Ainda tenho muitas autoras para trazer e mostrar, assim como reflexões a fazer. Espero que continue acompanhando a jornada das Filhas de Úrsula.

Reply

or to participate.