Carne crua

e alguns bastidores da edição de Garras

Boletim Lunar

No momento de envio, a lua está minguando. Ainda está gibosa, mas em breve atingirá a forma de sorrisinho misterioso no céu. A maré está baixando no Porto do Rio de Janeiro, e não muito distante de alcançar o ponto mais baixo do dia.

Luas & Marés - 01/01/2026

Nesta edição de Luas e Marés…

Um pouco dos bastidores da edição de Garras, a cena extra prometida e o projetinho novo que venho cozinhando.

Como foi o processo de edição de Garras?

Eu recebo essa pergunta com alguma regularidade, seja de leitores curiosos ou de colegas escritores interessados em saber como foi trabalhar com a equipe da Rocco e como eu lido com o processo de forma geral.

A verdade é que editar Garras foi bem mais tranquilo do que escrever, foi um processo mais cerebral e menos febril, enquanto a escrita foi caótica e catártica. Eu entreguei o manuscrito original na mão da Bia com pouco mais de 116 mil palavras e um irmão de Coeur a mais além do que vocês conhecem. Nós concordamos que o livro se beneficiaria (por muitos motivos) de diminuir um pouco, então a edição girou muito em torno de cortar gorduras e aparar arestas, além de tapar os tradicionais furinhos de roteiro que deixamos passar quando estamos escrevendo alucinadamente. Em termos de história, quase nada mudou.

Talvez a maior e mais óbvia modificação foi a perda de Alice de Coeur, irmã mais nova de Diana e de Armando, Albion e Augusto. Filha também bastarda, mas de uma outra caçadora ao invés de outra bruxa, Alice foi cortada porque tinha um papel bem pequeno — basicamente, a função dela na história era reforçar que Diana foi maltratada pela família não por ser apenas filha de uma amante e sim por sua origem de bruxa e por representar a maldição a que estavam todos presos. Na trama ela também servia para Albion tentar convencer Diana de que poderiam trabalhar juntos. Como ele fazia isso? Oferecendo como pagamento a cabeça da irmãzinha. Como sempre, uma família muito unida e feliz os de Coeur.

De todo modo, boa parte das cenas que saíram ou foram cortadas ou foram mescladas ao fazer emendas entre capítulos que foram suprimidos. Não vou dizer que foi totalmente indolor, porque eu amo muito essa história e amo especialmente as partes de interação dentro da matilha Lacarez e as brigas e provocações entre os irmãos. Mas fiz tudo muito tranquila de que era o melhor para o livro. Nem sempre mais é melhor, por mais que a gente tente se convencer do contrário. Depende muito da proposta de um livro, e Garras realmente precisava de mais dinamismo entre os acontecimentos.

E além de tudo, esses cortes me proporcionaram esse momento agora, de poder compartilhar um pedacinho a mais da história com vocês. Conforme prometido, aqui está a cena extra que eu disse que enviaria caso ganhasse o Prêmio Argos!

Essa cena está posicionada entre os capítulos 10 e 11, se passando assim que Edgar deixa a casa da Diana após o encontro e discussão na manhã seguinte à lua cheia. Está toda do ponto de vista dele. Esse trecho foi cortado originalmente por motivos de dinamismo da história e também porque o foco dele não era tanto Edgar e Diana enquanto casal, e sim a família Lacarez.

Também cabe aqui uma explicação: durante o processo de edição uma boa parte da construção de mundo e da mitologia dos lobisomens acabou sendo suprimida. Como eu já falei em algumas ocasiões, eu me inspirei muito no lobisomem tradicional (se transforma na lua cheia e não quando quer, tem apetite por corações humanos e etc), mas também criei um bocado de coisa pros meus lobisomens e para a forma como eles vivem nesse universo fictício (por exemplo, a distinção entre matilha e alcateia, o fato de comerem preferencialmente carne crua mesmo usando a pele de homem).

Uma dessas coisas que foi suprimida aparece nessa cena de uma forma muito breve, e foi cortado justamente porque a história de Garras não me permitiria mergulhar muito nessa questão. Então, vou deixar aqui já essa explicação prévia para melhor aproveitamento da cena e, também, para deixar um indício de algo que poderíamos, talvez, quem sabe, ver num livro do Guido. Os lobisomens de matilha não veem a existência de homem e de lobo como maldição, e não têm vergonha do monstro, ao ponto de que muitos deles gostariam de viver apenas na carcaça de lobo, deixar a pele de homem para trás. Eles acreditam que conseguir isso não é fácil, mas que talvez seja possível se agarrar na pele do lobo e continuar nela mesmo depois que a fase da lua muda.

Na verdade, acredito que fãs do Guido vão apreciar esse trecho, talvez até mais do que os fãs de Edgar? Não sei, me contem!

Sem mais demoras, fiquem agora com...

(e lembrem-se: essa cena foi deletada do original, por isso não foi profissionalmente revisada e nem preparada! Por favor, perdoem possíveis erros e letras trocadas!)

Carne Crua

Tudo que queria — que se permitia querer no momento — era se jogar por trás do balcão do bar da cachaçaria e virar uma garrafa na cara, deixar a aguardente escorrer pelo nariz até expulsar o cheiro dela, o sabor que ainda passeava escorregadio na língua. A fome corroía o estômago e escalava pelo peito com as garras do lobo, como se não tivessem comido durante a noite, como se não tivessem se banqueteado meia hora atrás com Diana tão macia e maleável contra sua boca.

Era um milagre que tivesse sido capaz de recuar. Um milagre de Lua Cheia que ele não merecia, não era um lobo devoto e talvez jamais fosse.

Ela não sabia o que tinha oferecido. Ou, Edgar, preferia não pensar no significado de que soubesse, de que já tivesse lidado com lobisomens antes, na ideia de um outro lobo farejando aquele território. Amantes. Talvez Diana fosse como as clientes de Heitor, talvez ter sido criada por humanos desprezíveis criasse nela um apetite para adrenalinas maiores. Ela sugeriu amantes.

O rosnado subiu pela garganta e explodiu em força bruta, quebrou a porta do bar da cachaçaria se jogando contra ela, a madeira um substituto seco para a criatura imaginária para quem Diana poderia estar correndo naquele exato instante depois de se sentir rejeitada. Um dos muitos faunos que trabalhavam para ela, centenas de fadas pequenas e precisas e nada ameaçadoras, um dos nefilins delicados nos bordeis mais caros, ou pior, um lobo de alcateia — um lobo civilizado, domesticado, que não ameaçaria comer a governanta por se aproximar daquele território de pele quente e cheirosa que deveria ser só seu mas por algum motivo idiota não estava incluso no contrato em papel que tinha insistido em fazer.

A ideia de casamento era ridícula. Insuficiente. O lobo não entendia de acordos, não sabia nada de conveniência. O lobo era um imbecil selvagem que tinha ido atrás dela durante a merda da lua cheia e tornado a situação ainda mais complicada. Se cedesse por um momento, mesmo de dia, daria meia volta e iria atrás dela de novo.

Cambaleou bar adentro e jogou algumas cadeiras longe, queria preencher os ouvidos com qualquer coisa que não fossem os sussurros dela. Guarde essa fome para mim. Ela não podia saber o que estava pedindo.

— Ed? O que você tá fazendo aqui?

A voz grogue de Heitor perfurou a névoa de fúria por um momento. O irmão estava sem camisa, atravessando a porta que dava para o apartamento dos fundos.

Sofrendo. Cogitando voltar lá e fazer uma grande burrada.

— O que você tá fazendo aqui? — devolveu a pergunta, ciente de estar adiando o assunto que permeava cada poro da pele que tocara nela. As roupas improvisadas. O maldito perfume.

Tentou se concentrar. Não se lembrava de mais ninguém ter saído da mata junto com ele. Heitor contorceu os lábios e indicou a parte de dentro com a cabeça.

— Guido.

Com um suspiro cansado, lutou contra o alívio que sentiu pelo problema familiar que se apresentava. Não devia se sentir feliz pelo sofrimento do irmão o distrair por um momento dos próprios tormentos. Entrou ao lado de Heitor, o tempo todo sentindo o olhar e o farejar dele, adivinhando por onde havia passado e o que andara fazendo.

Uma cozinha conectava o bar com o depósito da cachaçaria e com o apartamento que dividiam. Encontrou Guido esparramado no chão, meio homem meio lobo apesar do sol forte entrar pela janela. Garrafas quebradas se espalhavam ao redor, alguns cacos de vidro agarrados nos tufos de pelo ainda visíveis e outros fincados na pele humana, sendo aos poucos expulsos pela benção da Lua que protegia as carcaças até dos lobos mais miseráveis.

— Puta merda… ele não fez isso.

Raul chegou carregando um balde de água e sem a menor cerimônia virou todo por cima dele. O lobo ganiu e recuou, pouco a pouco se confinando dentro do corpo magro e cheio de cicatrizes do homem tremendo e grunhindo reclamações por ter sido acordado daquela forma.

— Ele brigou com meia mata e depois saiu correndo, vim atrás dele quando percebi o que ia fazer — Heitor falou baixo, a voz rouca denunciando a própria exaustão. — O desgraçado quase que me deixa incapaz de atender a cliente hoje. Uma ajuda teria sido legal.

Uma ajuda quando o lobo tinha fugido da mata para correr atrás de mulher também seria bem legal, mas conteve o rosnado. Entre humilhações e falta de controle da fera, a situação de Guido ainda era bem pior. Abaixou ao lado do irmão e deu tapinhas no rosto para acelerar o despertar.

— Você tá cheirando a prazer de moça rica… — Guido rosnou e abriu os olhos, o lobo lá dentro tão suprimido quanto possível.

— E você tá cheirando como um bêbado todo cagado que não sabe escolher a árvore certa pra mijar.

— É com essa boca suja que você convenceu sua noiva de mentira a abrir as pernas pra você? — Heitor murmurou, abaixando do outro lado.

— E você fica na sua, pivete — rosnou para o mais novo.

Cada um pegou num braço. Guido tentou se desvencilhar, mas no fim se deixou erguer pelos dois.

— Vocês três são uns pivetes — Raul resmungou trazendo uma bacia cheia de carne crua salgada, preservada para emergências como aquela. — Vocês têm sorte que Mimi não veio, tá ensinando Melina sobre os ritos.

— Aquela velha sempre quis uma menina pra mimar — Edgar comentou antes de fincar os dentes na carne, o sal atacando as narinas como queria. Bastou uma mordida para saber que não seria o suficiente para limpar o gosto de Diana. O monstro jamais esqueceria, jamais deixaria de sentir aquela fome.

— E você, pelo jeito, está pensando em dar uma neta pra ela — rosnou Raul.

Tio e irmãos o encararam com diferentes graus de julgamento e incompreensão, então fez o que qualquer irmão faria e desviou o assunto para Guido.

— Segurar a transformação ao longo do dia? Você comeu cocô?

A resposta de Guido foi apenas mastigação sem vontade, encarando o chão e fingindo que eles não existiam. Quanto mais o lobo arrefecia, exausto de se agarrar à Lua, mais as olheiras ficavam demarcadas, a magreza estranha num lutador se acentuando. A fera consumia Guido por dentro, a besta faminta demais para se contentar com o alimento que vinha de fora.

Em outras luas talvez Edgar conseguisse encontrar dentro de si um pouco mais de gentileza, um pouco mais de culpa por ter passado uma noite fazendo merda enquanto o irmão se afundava em agonia. Naquele dia, tinha a própria fome para lidar.

— Você é um idiota.

— Ei… — Heitor resmungou de boca cheia.

— Ele é, e sabe disso. Quer virar lobo de vez e acha que é a droga da cachaça que vai resolver esse problema. Quer se transformar pra nunca mais voltar, justo quando essa merda desse corpo de homem que a gente veste tá finalmente saindo da sarjeta. Sobreviveu às rinhas, guerra por território, abandono paterno… e agora resolveu que tá cansado? NÃO. Você não vai largar de mão agora que as coisas vão ficar boas, agora que vai poder parar de lutar pra sobreviver.

Era injusto, por isso as palavras tinham gosto bom. Entre os irmãos podia xingar e bater sem medo de que ficassem horrorizados e desistissem. No entanto, foi exatamente isso que Guido fez. Os ombros caíram, a cabeça despencou e a carne crua ficou esquecida pela metade.

— E eu sou o que se eu parar de lutar? Um bêbado cagado. Um substituto ruim pro nosso pai.

— Não fala desse desgraçado, ele não tem lugar nessa casa. — Edgar bateu no tampo da mesa e lá se ia mais uma peça de mobília destruída.

— Tanto faz, Ed. Ele foi embora porque viu que não ia conseguir nada com a gente… e a culpa é minha… não dei conta… não dou conta.

— Para com essa merda. Algum de nós parece que tá dando conta? — Heitor falou de boca cheia, o lobo inconsequente de repente muito sério enquanto encarava o chão. — Se você não sabe quem é, então é burro mesmo.

— Ah é, pivete, então quem eu sou, já que você sabe? — Guido rosnou.

— Nosso irmão mais velho, seu merda. Guido Lacarez, que foi pras rinhas com quinze anos de idade pra botar comida na mesa de três vira-latas sem abrigo enquanto nossos tios estavam ocupados demais tentando não morrer. — Meio cheio de tudo que preenchia aquela família e meio violento com a visão digna de pena, Edgar agarrou o queixo de Guido e o forçou a olhar para ele e para Heitor, e até Raul mais atrás. — Olha em volta. Tudo isso aqui começou porque lá atrás você não desistiu, catou dois moleques pelo braço e fez um arremedo de matilha dar certo até os adultos voltarem. Então não, você não vai desistir agora, seu desgraçado. Você vai colocar um terno caro semana que vem, vai entrar na porra da minha festa de casamento de mentira e sorrir, e depois vai entrar na fábrica que vai ser nossa e gastar munição só por diversão. Vai andar na parte alta e mijar no território Montalves e vai viver rico do nosso lado. Só depois de muitas luas, se você quiser continuar com essa besteira, é que você vai pensar em ser lobo até o fim dos dias. Entendeu?

Recebeu um meio aceno, um sacudir de carcaça. Guido respirou fundo, evitando piscar pra não deixar a umidade repentina escapar enquanto encarava o teto por cima do ombro de Edgar.

— Agora que tiramos a merda do Guido da frente… a gente vai falar sobre a merda do Edgar? — Raul mastigava seu pedaço de carne no canto. Estava mais inteiro do que eles, tinha muito mais luas nas costas. — O que você pensa que foi fazer lá no alto?

— A única coisa que a cabeça de baixo consegue pensar… — Heitor sorriu de lado — Mas pelo humor, não deu muito certo.

— Claro que não tinha como dar certo! — Raul rosnou. — Correr pela cidade em plena lua cheia! E se-

O som dos passos no bar da cachaçaria veio logo antes do cheiro invadir a cozinha, pungente e limpo como só um cachorro de raça conseguia exalar. Os três se colocaram de pé ao mesmo tempo, olhos fixos na porta. O tio suspirou.

— E se os Montalves pegam meu rastro…. — Edgar completou baixinho, e balançou a cabeça. — Bom, vamos acabar logo com isso.

Com um aceno para Heitor e depois para Guido, saíram. Edgar fez questão de não se arrumar nas roupas improvisadas, de carregar o pedaço de carne na mão. O mais velho o seguiu nu, o mais novo só de calças. Só Raul mantinha um mínimo de aparência de civilidade e não fazia questão de esconder o cansaço.

Havia seis deles, claro, porque lobos de alcateia só sabiam andar em bando. Estavam todos compostos e bem arrumados, cabelos perfeitamente alinhados, expressão controlada como se a Lua escondida sob o sol mal os tocasse. Odiou todos, odiou a pureza de suas roupas e o olhar de nojo. Conhecia alguns de vista, machos e uma fêmea, a maioria jovens com algum grau de parentesco distante que jamais reconheceriam. Mas Diego, por mais que quisesse, não poderia negar o sangue dos três, não quando tinha os mesmos cabelos de Heitor, complexão física de Guido e os olhos de Edgar — todas características herdadas do lado materno da família.

— Bom dia, tio. Perderam alguma loba por aqui?

Diego mostrou os dentes sem rosnar. O irmão mais velho de sua mãe sempre fora o lobo designado da alcateia Montalves para lidar com os vira-latas. Um futuro alfa; importante, mas ainda longe de ter poder suficiente para se esquivar de resolver problemas na sarjeta.

— Eu faria a mesma pergunta, se achasse que alguma loba de família seria escandalosa o suficiente para convidar você até a parte alta… — Ele observou os arredores, se demorando nas cadeiras que Edgar havia destruído, antes de encarar os três com as narinas levemente trêmulas, desgostoso do cheiro. — Mas não… sei que não é isso. Já faz vários dias que tenho sentido cheiro de lama onde deveria haver apenas limpeza… rodeando um território a que não tem direito. Nós estávamos prontos para ignorar, o que um vira-lata faz de dia não é problema nosso. Mas correr transformado no portão dos de Coeur… isso é demais. Isso não é só pedir por uma bala de prata na própria cabeça, é colocar todos os lobisomens da cidade em risco.

— Todos não, só os que gostam de tosa e banho.

— Tire a lua da cabeça pra falar comigo, moleque.

— E você tire esse desprezo pra falar comigo na minha própria casa. E na minha futura casa também. Não ficou sabendo ainda? Talvez não tenha recebido um convite, é minha noiva quem está cuidando de tudo isso. Se vocês pedirem com educação eu aviso pra ela incluir mais alguns tios e avós na lista.

— Como é?

— Eu vou me casar, tio. Com Diana de Coeur.

Houve um momento de silêncio tenso. Então Diego gargalhou, seguido pelos jovens lobos estupefatos. Edgar não se mexeu, se orgulhou dos irmãos que também se mantiveram firmes — as brigas às vezes os deixavam mais sintonizados, mais cientes dos movimentos uns dos outros. Quando o tio domesticado percebeu que não era uma piada, olhou para Raul.

— Isso é sério? Casamento com uma humana?

— Se vocês infelizes não tivessem matado Elena, quem sabe ela não colocava um pouco de juízo na cabeça dele. A Lua sabe que esse aí não ouve ninguém. Ou… quase ninguém.

Quase ninguém. Ouvia Diana e seu coração batendo durante a lua cheia. Queria afastá-la do pensamento, mas tinha acabado de usar o nome dela como arma, tinha gostado da sensação de finalmente mostrar uma vantagem que tinha sobre os Montalves. Era o exemplo perfeito de por que precisava fazer as coisas funcionarem com ela.

— Diana de Coeur…. É a bastarda — disse a única fêmea do grupo, escondendo o sorriso sarcástico por baixo de um chapéu de abas redondas que mostrava o esforço de se vestir como as humanas. — Acho que vira-latas se misturam, não importa a espécie.

Os outros mais jovens riram de novo, ignorando o rosnar de Edgar. Diego continuou sério, atento ao seu estado e sua reação à ofensa. Ergueu o queixo e farejou o ar da maneira discreta que os cães domesticados faziam, talvez reconsiderando os cheiros que sentia. Guido estivera certo, Edgar cheirava a menina rica, cheirava ao prazer de Diana e gostava cada vez mais daquela perspectiva. O cheiro dela estava impregnado nele, então qualquer outra criatura perceberia o dele nela.

— Garoto, se você arrumar problema para os lobisomens…. Eu vou pessoalmente terminar o que o meu pai começou.

— Velho, se você não sair daqui agora eu vou pessoalmente devolver o que os Montalves fizeram com a minha mãe.

— Se envolver com caçadores é loucura!

— É medo que eu farejo nos engomadinhos? — Heitor bufou.

— É inteligência. Algo que falta a vocês, vira-latas. Escute o que eu digo, moleque, não vai haver nenhum lobisomem que virá a seu resgate quando isso acabar mal.

— Pode ficar tranquilo, tio, nunca contei com nada vindo dos cães tosados da parte alta. Agora, você está invadindo nosso território. E se bem lembro, minha noiva deixou bem claro com balas de prata que invadiu ontem também, lá em cima. Se não for embora daqui agora, eu vou começar uma guerra e estou quase torcendo para que não escute meu aviso.

Pareceu uma infinidade de tempo até Diego fazer um sinal com a cabeça e os mais novos recuarem. Não era sempre que tinha a oportunidade de ver Montalves recuando, e sabia que não fosse Diana ter pegado em armas na noite anterior isso talvez não acontecesse. Louca e corajosa, tinha forjado mais um elo na corrente que ele via crescer a cada dia ao redor do pescoço. Tudo indicava que estava prestes a usar uma coleira, e no momento não parecia uma ideia ruim.

Novidades

Eu tenho algumas metas para 2026, dentre as quais a mais difícil talvez seja essa: fortalecer conexões. Acho que estamos entrando num ano mais do que complicado, que já começou com eventos históricos que ainda vão reverberar por muito tempo. Em tempos como esse, acho importante nos apegarmos ao que é real, ao que é sólido, aos caminhos que nos conectam para que não fiquemos perdidos nos momentos mais sombrios. Na busca por essas conexões, resolvi começar um projetinho na minha newsletter!

Ainda esse mês, vou dar o pontapé no “Filhas de Úrsula”, que é a minha busca por pensar e debater o espaço das escritoras mulheres nos dois grandes gêneros da ficção especulativa: fantasia e ficção científica. Entrevistei (e ainda estou entrevistando) autoras brasileiras que escrevem dentro desses gêneros, e vou ao longo de várias edições compartilhar as respostas com vocês, junto das minhas próprias reflexões sobre o assunto. Tudo começou com uma grande pergunta: as mulheres se sentem mais à vontade na fantasia do que na ficção científica? E, se sim, por que? Convido vocês a pensar sobre essa questão comigo e com as minhas colegas de profissão ao longo das próximas edições de Luas & Marés, e quem saber conhecer autoras que não conhecia ainda!

A maré trouxe…

  • A primeira leitura que terminei em 2026 foi Fortunato Poeira, livro de ficção científica da Anna Martino. Eu na verdade já tinha começado beeem antes no ano passado, interrompi por motivos de puerpério me fazendo chorar, e agora retomei com tudo. Não é um livro triste, não exatamente, mas eu estava muito sensível em vários tópicos, então não deixe esse comentário te desanimar caso você não queira chorar. Acontece que um dos grandes talentos da Anna Martino é colocar dramas familiares na ficção, entregar personagens cinzas que poderiam ser membros das nossas próprias famílias. O que acontece quando um homem sem morada fixa morre numa das colônias espaciais da Terra? O que acontece quando um homem conhecido por muitos passa a ser conhecido de verdade apenas depois de morrer? Você encontra essas respostas aqui.

  • Essa aqui a maré me trouxe há muito tempo e trouxe de volta agora. Alma, escrito por Gail Carriger e publicado no Brasil pela Editora Violeta, foi uma recomendação de Fernanda Castro que eu gostei tanto que não apenas se tornou uma referência para o universo de Garras e Feras como tem uma cena em Feras que é uma homenagem a uma cena de Alma. Numa Londres vitoriana em que humanos, vampiros e lobisomens convivem na mesma sociedade, Lord Maccon, o alfa dos lobisomens de Londres, tem a responsabilidade de vigiar Alexia Tarabotti, uma humana sem alma. E quando vampiros e lobisomens começam a desaparecer misteriosamente, os dois se aproximam cada vez mais... Alma é o primeiro livro da série, mas se você não quiser cair no esquema de pirâmide pode ler só esse que o final é bem fechadinho.

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